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Saloios: Tradições com Alma

Herdar o passado da nossa gente, povo trabalhador e ordeiro, é uma obrigação para que amanhã possa fazer-se eco da etnografia que nos caracteriza.

E para que não morra silenciada, é sempre um prazer o dever de relembrar alguns exemplos do século que nos antecede, no que respeita a facetas e ofícios, desaparecidos nos dias decorrentes, mas que são ainda pertença de um passado bem recente.

Como alguém disse um dia “cada idoso que morre, é uma biblioteca que arde”, já que à medida que vão desaparecendo, morrem com eles, as tradições, os usos e os costumes. Quando se fala na região saloia, fala-se nas terras compreendidas entre Torres Vedras e os arredores de Lisboa, como Bucelas, Colares, Mafra, Torres Vedras, Carcavelos, de onde se fazia chegar um bom vinho, e de algumas mais.

Caneças e Malveira forneciam boa água, vendida à bilha pela cidade.

Lavadeiras prestavam o seu trabalho, como se diz hoje, em regime de serviço domiciliário.

De Cascais partiam as varinas, palmilhando e calcorreando becos e calçadas para fazer chegar às freguesas o bom peixe fresco.

Já da zona de Sintra e Almoçageme chegavam à capital os figos e os morangos reconhecidos pelo seu doce sabor, assim como a hortaliça sempre tenra e viçosa. Tudo colhido de madrugada, para que de burro ou carroça se carregassem, antes do calor se fazer sentir, a fim de evitar que os produtos murchassem.

Em Lisboa, um sem número de profissões, desempenhadas pelos saloios que para ali se deslocavam com o fim de amealharem algumas moedas que lhes garantissem a subsistência nos meses em que o frio e a chuva os não deixassem laborar, nos campos e nas hortas, faziam-se ouvir.

As suas vozes davam um colorido ruidoso à cidade, tornando-a tão pitoresca, suigénere e única no mundo. Eram eles os aguadeiros, amoladores, calceteiros, latoeiros, varredores de rua, vendedores de castanhas e pevides e fava-rica, varinas, carvoeiras, leiteiras e muitos mais.

Estas profissões foram desaparecendo no tempo, à medida que as novas técnicas de comercio se desenvolviam e melhoravam, inovadas no acondicionamento e transporte. Também o pregão morreu, enterrado pela publicidade escrita e representada, consequência do aparecimento dos jornais e da televisão.

Assim cada vez mais deixamos de ouvir na cidade pregões como os das varinas, do homem do trapo ou da vendedora de figos: Há pescada do alto!, Quem tem trapos e garrafas para vender?, Quem quer figos, quem quer almoçar, ai que os meus figos são tão lindos.

Vestindo saia garrida com barra por baixo, blusa branca e lenço florido, sapatos grossos e meia de risca, assim trajava a saloia enquanto na fonte enchia os cântaros da água, depois de feita a venda, enquanto regressava aos afazeres da casa, para terminar a rotina demais um dia.
Vera Cardoso



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