Promoção turística do Algarve tem que ser focada muito nas novas tecnologias

Hélder Martins, antigo presidente da Região de Turismo do Algarve (RTA),
será candidato a presidente da direção da Associação dos Hotéis e Empreendimentos Turísticos do Algarve (AHETA).
O empresário, licenciado em Gestão Turística, assume que a situação inédita de grande vulnerabilidade e imprevisibilidade em que o sector turístico se encontra, e em especial os empresários da hotelaria e restauração, o motivou a avançar com esta candidatura.
Com uma carreira ligada ao turismo, de empresário na área da restauração a gestor de grupos hoteleiros,
Hélder Martins tem dedicado os últimos anos da sua vida profissional à reabilitação com sucesso de uma unidade de turismo rural em Tavira.
No seu percurso de vida passou ainda por diversos cargos públicos, nomeadamente na área do turismo.
Foi presidente da RTA entre 2003 e 2007,
presidente da Associação de Turismo do Algarve e foi ainda presidente da Associação Nacional de Regiões de Turismo.
Antes passou pela Câmara Municipal de Loulé onde exerceu o cargo de vice-presidente.
Como candidato à presidente da direção da AHETA o Opção Turismo trocou algumas impressões com Hélder Martins.

 Quais as principais razões que o levam a apresentar a sua candidatura à presidência da AHETA?

Hélder Martins – Em primeiro lugar a minha decisão teve a ver com um convite da maioria esmagadora dos membros dos actuais corpos sociais da AHETA e de muitos outros associados que, tentando dar um novo rumo à associação, procuraram uma pessoa geradora de consenso, tendo o meu nome sido apontado para uma possível candidatura, o que muito me honra.

Este facto conjugado com a minha total disponibilidade, uma vez que de momento o meu hotel é gerido pela minha filha, e com a vontade forte de liderar aquela a maior associação representativa do sector do Turismo no Algarve, levou-me a aceitar esse desafio.

As razões não são uma condição suficiente para assumir a presidência da AHETA. Que outros apoios tem para avançar com a candidatura?

Hélder Martins – Tenho tentado o contacto com todos os associados, mas, lamentavelmente, ainda hoje não conheço a listagem dos associados nem tenho os seus contactos, enquanto que o ainda presidente faz contactos, a toda a hora, usando e abusando dos meios da AHETA. Aliás, esses contactos começaram há meses, dizendo que existiria apenas uma lista única e de consenso conseguindo desta forma a aceitação de alguns associados a integrarem a sua lista ou a passarem-lhe procurações para votar em nome dessas empresas associadas.

O que espero conseguir é que todos conheçam o nosso programa, que será divulgado muito em breve, bem como a nossas listas candidatas e que entendam a diferença que podemos fazer na gestão e credibilização da associação. A perda de associados tem sido uma constante neste último mandato, precisamente porque os empresários não se revêm na actual gestão da associação e procuram outras associações que possam representar melhor os seus interesses.

Muitos já nos manifestaram a disponibilidade de voltarem a ser associados da AHETA desde que esta passe a ser representativa do sector a nível regional e nacional. Um dos nossos objectivos para o próximo mandato é um aumento muito significativo do número de sócios.

Tenho apoio de grupos hoteleiros, médios e pequenos empresários, como eu, que apenas pretendem que a sua voz seja ouvida e os seus interesses sejam defendidos. No entanto a maioria dos membros das listas são empresas algarvias de pequena e média dimensão.

Tenho recolhido um vasto leque de apoios de importantes personalidades da área do turismo, de entidades oficiais, e de personalidades que marcaram o turismo no Algarve.

– Já tem uma equipa preparada caso venha a ganhar as eleições de Janeiro?

Hélder Martins -Já temos a equipa praticamente fechada, no entanto, estamos à espera de conseguir conhecer a listagem de associados para poder preencher os poucos lugares ainda em aberto e garantir uma abrangência territorial e sectorial. Dentro de poucos dias devemos entregar essas listas ao presidente da assembleia geral.

– Considera que a experiência adquirida ao longo da sua vida dedicada ao turismo poderá ser um activo para conseguir ser eleito?

Hélder Martins – Não tenho a menor dúvida. Passei pela maioria das áreas de actividade no turismo, e tenho a experiência vivida do que é pagar impostos, salários e assumir todas as responsabilidades de gestão de empresas turísticas. No entanto este não é um projecto de um homem só. Também aí queremos fazer a diferença. Por isso apresentaremos uma equipa composta por proprietários, administradores e gerentes de empresas e, através dos contributos de cada um, conseguiremos dar vida nova à AHETA.

– Quais os principais problemas que afectam os empresários da região?

Hélder Martins -Temos de ter sempre presente o facto de as empresas terem as suas tesourarias em pressão extrema há anos e que seria importante a saída desta crise ser acompanhada de uma renovação, remodelação e modernização das unidades hoteleiras e empreendimentos turísticos. A perda de competitividade não pode ser uma realidade e só o conseguiremos fazer com apoios aos investimentos de renovação e melhoramento dos nossos empreendimentos. Acredito que este será mesmo um desafio e era importante que o PRR não fosse todo para o Estado.

– Em seu entender quais são os principais desafios que se põem agora, no período pós-pandémico, às empresas turísticas?

Hélder Martins – Em primeiro lugar há que consolidar a imagem do Algarve enquanto principal destino turístico de Portugal, onde se pagam mais impostos, geram mais empregos e onde, para além do sol e praia, turismo residencial, golfe, animação, etc… somos um dos melhores destinos do mundo.

Essa imagem tem que chegar aos potenciais clientes através de campanhas intensas e objectivas de promoção turística.

A questão da segurança, essencialmente na saúde é vital e, o que nos ajudaria ter o Hospital Central do Algarve já em actividade!

Há questões vitais para o turismo como a elevada carga fiscal, a necessidade de mais formação profissional e a retenção de quadros na actividade turística através de melhores condições de remuneração. Para isso é necessário que as empresas estejam sólidas financeiramente.

Tendo em consideração o difícil período vivido ultimamente, deveria o Governo ter em consideração um alívio fiscal por forma a permitir um equilíbrio financeiro das empresas. Não podemos permitir que continuemos a ter empresários em graves dificuldades económicas, resultado da crise pandémica.

Para o Algarve persistem questões da mais elevada importância como a TAP que, com o dinheiro de todos, incluindo dos algarvios, continua a esquecer-nos como destino. As necessidades de mobilidade nomeadamente através de uma boa e eficaz rede ferroviária electrificada que possa atravessar o Algarve com ligação ao aeroporto; a sinalética; as elevadas portagens na A22 que continuam a ser castradoras da actividade económica do Algarve, enfim um vasto conjunto de questões que a devem na agenda diária da AHETA.

Numa entrevista ao Opção Turismo afirmou que “só com a criação de actividades e negócios no interior do Algarve, para gerar emprego, se combate a desertificação. Tudo o resto são conversas”. Como presidente da AHETA como poderá contextualizar isso?

Hélder Martins – Sempre fui um defensor de um Algarve com uma oferta com distribuição geográfica equilibrada. É evidente que o interior não poderá ser alternativa ao litoral, mas sim complementar. Se queremos travar a desertificação do interior é vital que haja actividade económica nessas zonas e que não sejam apenas dormitórios. Se as pessoas também trabalharem no interior irão lá fixar-se, os seus filhos frequentarão as creches, as escolas, e haverá “vida” nessas zonas. Também no turismo felizmente vão aparecendo alguns projectos que dinamizam a economia e criam postos de trabalho.

– Considera que a promoção do Algarve está a ser aquilo que o Algarve precisa agora? Porquê?

Hélder Martins – Está longe de ser o necessário. As restrições às viagens aéreas deixaram o país em geral e o Algarve em particular mais dependente dos mercados de proximidade, nomeadamente do mercado interno e do mercado espanhol, onde a promoção do destino, sofre com as limitações financeiras que as entidades responsáveis enfrentam.

Enquanto não conseguirmos uma promoção forte e de proximidade, os outros destinos nacionais continuam activos e a desviar potenciais turistas do Algarve para outras regiões. Devemos contar com uma equipa de promoção profissionalizada e proactiva, e com meios para disputar o mercado interno de igual para igual com as outras regiões que têm apresentado outros argumentos.

Por outro lado, considero que o Algarve deveria ser alvo de um “pacote especial de promoção”. Isto é, de um reforço financeiro para que as entidades que promovem a região possam ter melhores meios de nos representar lá fora. É sabido que os orçamentos de promoção turística para o Algarve, são demasiado baixos para as nossas necessidades. Assim, deveria o Turismo de Portugal dotar o Algarve de um ‘budget’ para os próximos três anos que permitisse chegar aos consumidores individuais e apoio a operadores que apostem na região, para que o Algarve continue a estar na mente dos consumidores.

Como sabemos “quem não aparece, esquece” e, numa altura que os destinos concorrentes do Algarve dispõem de orçamentos de promoção extraordinários, não poderemos perder a corrida.

– Em seu entender em que deveria assentar a promoção turística do Algarve?

Hélder Martins – A promoção turística, na actualidade, tem que ser focada muito nas novas tecnologias. Sabemos que muitos dos clientes que viajam preferem hoje organizar as suas ferias de forma independente por isso temos que estar tecnologicamente aptos a esse tipo de negócio. No entanto as companhias de aviação, os operadores, mesmo os mais convencionais não podem ser descurados. Portanto temos que mostrar de forma clara o que nos diferencia, as nossas vantagens de um destino seguro, de qualidade e acessível a todas as bolsas.

Deveremos incrementar as parceiras entre as empresas e as entidades de promoção turística no sentido de reforçar os orçamentos, através do contributo dos privados.

Quanto aos produtos, há que requalificar urgentemente o Sol e Mar. Não podemos iludir apenas com distinções internacionais de Melhor Destino de Praia, quando sabemos que faltam passadeiras para aceder ao areal, que não há casas de banho de serviço, suficientes, nem lava-pés ou chuveiros, que o estacionamento é desordenado e nalguns casos os areais não são limpos… Este é o produto estrela da região e não há um plano para requalificá-lo, pelo que temos de envolver tanto os hoteleiros como as autarquias e demais entidades neste desígnio.

Nos nossos objectivos deve estar também o crescimento sustentado no turismo de negócios, turismo de saúde, turismo desportivo, produtos que garantem uma maior abrangência do destino e ajudam a combater na luta contra a sazonalidade.

E se realmente queremos apostar na sustentabilidade do destino, então temos de desenvolver a oferta de Turismo de Natureza, apostar nos produtos da gastronomia e vinhos locais, no Turismo Cultural dinamizado também com recursos às tradições regionais…

– E, finalmente, considera ser útil que o presidente da RTA assuma também o cargo de presidente da ATA? Porquê?

Hélder Martins – Penso que, quer seja o presidente da RTA ou seja um elemento oriundo do sector privado, o importante é que seja competente e que a equipa que o rodeia tome as decisões corretas no sentido de termos mais e melhor promoção. Como sabe enquanto fui presidente da RTA era por força dos estatutos quem presidia á ATA. Mais tarde os empresários exigiram que fosse um privado que presidisse à ATA. E agora, mais recentemente, os mesmos empresários quiseram que voltasse a ser o presidente da RTA o líder da ATA. Assim, não me parece que a questão mais importante seja de onde vem o presidente, mas sim a sua capacidade de trabalho e a composição da equipa que deve ser abrangente e experiente para que se tomem as melhores decisões.

Luís de Magalhães