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Fica junto ao Cais Sodré, mais precisamente na Rua da Moeda 1G, e tem o nome de Big fish Poke. Com uma decoração a lembrar uma taberna japonesa e com apenas 28 lugares este novo espaço (abriu a 15 de Abril) pretende mostrar o que de melhorar há na gastronomia havaiana e, simultaneamente, desmistificar as noções (erradas) sobre o sake.

A entrada passa despercebida, algo perdida no meio dos outros restaurantes – a Rua da Moeda é pródiga em espaços de restauração. Ao entrar somos recebidos por um enorme balcão (20 dos 28 lugares são precisamente ao balcão) onde é possível não só ver a comida a ser preparada, mas também interagir com o(s) chef(s).

Confesso que fui sem grandes expectativas. Não tive tempo para pesquisar e não sabia bem ao que ia. Ia à aventura (às vezes é o melhor a fazer). E a verdade é que fui agradavelmente surpreendida.

Tudo começou com um cocktail de boas vindas. Um Mai Tai de abacaxi e amendoim, com dois tipos de rum. Quem me conhece sabe que não sou grande fã de bebidas brancas (a minha preferência vai para o vinho), mas este era bem agradável e combinou na perfeição com o primeiro snack, constituído por salmão, manga, furikake e coentros. Um pequeno snack muito fresco e picante q.b, onde o molho ligava os vários ingredientes e cujo sabor foi realçado pela acidez adocicada do cocktail.

Com a entrada começaram a surgir os vários sake. A ideia, explicaram-nos, era a de mostrar, por um lado, a versatilidade desta bebida japonesa, mas, também, desmistificar o seu teor alcoólico. Na verdade, este é inferior (nalguns casos vários graus) ao vinho português.

O primeiro sake a ser servido lembrava um espumante adocicado. Takara Sparkling Mio. Fixem este nome e, se tiverem oportunidade, experimentem-no. E embora possa, perfeitamente, ser bebido sozinho fica delicioso quando acompanhado por umas vieras braseadas, XO, dynamite aioli, molho de sésamo e lima Kaffir. Neste caso em particular o sake funcionou como um complemento, realçando o sabor das vieiras, que, em conjunto com o molho, se tornavam ligeiramente picantes. Uma combinação onde os sabores se conjugaram, não havendo uma sobreposição.

O segundo sake – Otora Junmai – foi designado de “verdadeiro sake”. Diga-se o tradicional. E a verdade é que é mais denso. Pede comida. Mas trata-se de uma bebida com um ligeiro travo alcoólico, que se nota na ponta da língua, sendo, depois, extremamente suave na boca. Parece algo estranho ao início, mas depois, ao segundo golo, percebe-se que há ali algo mais. E esse algo mais serve de contraponto ao poke. No jantar de ontem este sake serviu de paring ao poke big fish – atum Yellofin, arroz Yumenishiki, kyuri, cebola doce, cebolo, alga wakame, Hawaiian sauce e cebola crocante. Um prato muito fresco, fruto da utilização do salmão e da alga. O molho (mais uma vez) serviu de elo de ligação entre os vários ingredientes. Aqui só houve um pequeno reparo a fazer. Os pedaços de salmão deveriam ter sido cortados mais pequenos. De resto, nada a apontar.

Mas, por vezes, no melhor pano cai a nódoa. O sake servido com o poke de atum deveria ter sido, igualmente, servido com o poke seguinte. Uma receita pontual, a pensar no Verão e nas festas: sardinha braseada, pimentos assados, tomate cherry, cereja, coentros e broa de milho crocante. Curiosamente um prato muito equilibrado onde a sardinha, ligeiramente fumada, não se sobreponha aos outros sabores. Mas que foi totalmente abafada pelo sake escolhido – Suppai Umeshu. Este com um sabor final extremamente adocicado e a saber a ameixa, suplantava todos os sabores do poke. Isto porque a verdadeira combinação deveria ter sido feita com a pré-sobremesa, uma malassada servida com creme de batata doce (uma espécie de bola de Berlim).

Apesar deste desaire a refeição terminou em grande. Com uma sobremesa que deliciou não só a vista – o empratamento remeteu para o vulcão que existe na ilha – mas também as pupilas gustativas. Denominada de Chocolate Kilauea consiste numa mousse de chocolate 70% equador, wasabi, iogurte e sal negro do Hawaii (a lembrar umas pedras). Servido com um chá preto de cacau e cardommo. E aqui sim. Esta foi uma combinação vencedora. Onde o sabor mais ácido e amargo do chá (mas não em demasia) contratava e atenuava o doce da mousse. Por seu lado o sal não só auferiu textura como deu um toque extra.

No final a avaliação global é a de que este é um local a regressar. Quer pela comida – estava bem confeccionada e gostaria de experimentar outras variedades da carta – mas principalmente pela bebida. Porque gostaria de conhecer mais sobre o sake, porque foi uma bebida que me surpreendeu, e, principalmente, porque gostei do trabalho do responsável pelo paring das bebidas.

por Alexandra Costa