É bom voltar a ver os céus de Lisboa salpicados de luz

Não são estrelas, nem cometas, nem a lua nas suas várias fases. Viver com vista para o Cristo-Rei e a Ponte 25 de Abril é um privilégio para apreciar de novo os céus de Lisboa salpicados de luz. É anfiteatro perfeito para assistir a aproximação dos aviões ao Aeroporto Humberto Delgado. E quando levantam voo, a maior parte das vezes é na mesma rota.

De onde chegam e para onde vão, não sei. O que sei é que voltaram a chegar e a partir de Lisboa, cidade capital em que, por via aérea, chegam e parte grande parte dos turistas que a visitam. É um momento de regozijo.

É noite e não consigo ver de que companhias são esses aviões. De dia, mesmo nos céus, conseguiria reconhecer cada uma, pelo logótipo da cauda. Defeito de profissão. O que vejo é que não têm parado. Os que aterram e levantam durante o dia não consigo percepcionar. A luz do sol não ajuda, mas quem olhar para os céus de Lisboa durante a noite vai ver que há mais luz, há mais movimento.

Quando todas as fronteiras aéreas estiveram encerradas, a vista era de noites escuras, não fosse o nosso principal monumento da margem Sul sempre iluminado e a abraçar Lisboa, ou a ponte que nos lembra que existe um elo umbilical entre as duas margens.

Esta ponte nunca deixou de brilhar num vai/vem constante de luzes dos automóveis e dos comboios. O Tejo também sempre iluminou as duas margens no cadenciar das ondas e no baloiçar dos cacilheiros e outros meios mais modernos de travessia.

Faltavam os céus. Felizmente, neste Verão, passaram a ter de volta um brilho de luzinhas em movimento. A Covid-19 tem sido teimosa, mas os céus de Lisboa brilham de novo.

São menos aviões, é verdade, mas a esperança na recuperação é a última a morrer. Nada que se compare com o 2019 em que os céus de Lisboa pareciam comboios de luzinhas cintilantes, parecia até que tantos aviões em fila iam chocar à vista da terra. Claro, visão de óptica.

TAP ainda em apuros!

Veja-se que a capacidade de transporte de passageiros da companhia aérea portuguesa é metade da que existia em 2019, ainda assim há uma forte melhoria face aos níveis registados no Verão passado, mas em linha com cenário estimado pela IATA.

A TAP está a recuperar progressivamente a capacidade e aponta agora para uma redução de 50% nos meses de Verão, face aos níveis registados no mesmo período de 2019. Um nível muito acima de 2020, mas aquém do que era estimado em Maio.

Os 50% representam, ainda assim, uma forte recuperação face ao Verão de 2020, quando a TAP registou uma redução de capacidade de 88% em Julho, de 75% em Agosto e de 72% em Setembro.

Os últimos dados da Associação Internacional de Transporte Aéreo (IATA) indicam uma redução de capacidade de 51,6% na indústria em Junho. Nesse mês, a TAP transportou 424,9 mil passageiros, 16 vezes mais do que no mesmo mês do ano passado, mas menos 73% do que em Junho de 2019.

O segundo trimestre já evidenciou uma forte recuperação do tráfego aéreo em Portugal. O último boletim estatístico da ANAC dá conta de 54 mil movimentos nos aeroportos nacionais, o dobro do registado entre Janeiro e Março e quase cinco vezes mais do que no mesmo período do ano anterior.

A melhoria é evidente também nos 3,38 milhões de passageiros transportados entre Abril e Junho, mais 178% do que no primeiro trimestre e quase nove vezes mais do que nos meses homólogos.

Ainda assim, o enquadramento normativo aplicável ao transporte aéreo, designadamente as restrições impostas aos voos provenientes de países que não integram a UE, bem como a obrigatoriedade de apresentação de teste PCR negativo ou de Certificado Digital Covid, por parte dos passageiros, e as diferentes velocidades de implementação das mesmas na Europa, acabaram por condicionar a recuperação do sector. Apesar da evolução positiva, quer os movimentos (-54%) quer o número de passageiros (-78%) continuam muito aquém dos níveis do segundo trimestre de 2019.

A capital portuguesa reclama um novo aeroporto complementar, assunto mais que discutido. De vez em quando a questão vem à baila, outras vezes parece que ninguém se lembra. O que sei é que quando outros aviões de outras companhias forem para o Montijo, ou quiçá Alcochete, não terei o privilégio de assistir, do meu anfiteatro natural, tantas luzes a piscar na aproximação a Humberto Delgado, ou a sair para mil e um destinos.

Carolina Morgado