Início Opção Turismo David Coelho CEO da TryVel: estamos a tentar reinventar

David Coelho CEO da TryVel: estamos a tentar reinventar

Os últimos meses têm sido difíceis para as agências de viagens, mas a TryVel, cujo ADN são viagens culturais e temáticas sobre arte, história, literatura ou cinema, tem procurado lançar novos projectos em Portugal, como explica o seu CEO, David Coelho, em entrevista ao Opção Turismo.

Ficou bem patente o espírito resiliente e corajoso, mas também cauteloso e atento com que a estrutura enfrenta o actual momento preconizado pela pandemia. Só a criatividade e a nossa capacidade de adaptação podem fazer a diferença, mas mais do que lamentarmos, temos de reinventar, procurando novos produtos e soluções, e potenciando outros. Há muito em nós e o destino Portugal e a sua história, enoturismo, costumes, tradições, gastronomia, artes plásticas e artesãos provam-no bem, disse David Coelho, acrescentando que tudo isto estará brevemente nas lojas TAG – Travel.Art.Gourme (inspired by TryVel).

Opção Turismo – Com esta pandemia, como é que a TryVel está a viver?

David Coelho – Como quase todas as empresas pensávamos que era uma situação muito mais reduzida no tempo. Nem imaginaríamos que o mundo no século XXI pudesse estar tão fragilizado, ser visado com tanta facilidade e sem capacidade de respostas a uma situação como esta.

Assim, temos vivido ou sobrevivido de acordo com o que nos permitem, com as regras que estão implementadas tanto a nível nacional como internacional, mas também de acordo com a nossa consciência, a nossa estrutura e com os nossos clientes.

No que diz respeito à parte comercial, o que temos tentado fazer é lançar novos projectos em Portugal, dentro do foco do ADN da empresa, que são viagens culturais e temáticas. Temos tentado encontrar pontos culturais interessantes e alguns projectos, uns de maior, outros de menor dimensão. As margens não são grande coisa, mas permite-nos ir trabalhando para minorar os encargos financeiros fixos. Isto do ‘lay-off’ é interessante, é importante, valorizamos, mas é muito pouco. Na TryVel temos custos mensais de mais de 20 mil euros, portanto, a penalização é gigante.

No entanto, se conseguirmos realizar alguns milhares de euros na organização de algumas viagens de grupo, que vamos fazendo, são sempre bem-vindos.

As empresas com quem trabalhávamos hoje não querem ver o seu nome associado a uma deslocação ou um evento, o que as inibe de fazer grandes coisas a nível de grupos em Portugal.

Outra é a questão de as pessoas se sentirem reprimidas. Perderam o ritmo e ficaram desenraizadas das suas rotinas.

Opção Turismo – As vossas viagens de grupo começaram quando?

David Coelho – Em Maio começou-se a pensar em fazer alguns grupos a partir de Julho. Entendiamos que havia alguns riscos  e a facilidade de possível contágio. Não obstante, por pressão de alguns colegas nossos e porque tínhamos grupos anteriores que tinham sido adiados para Julho, mantivemo-los, designadamente em relação a viagens temáticas.

Tivemos que criar toda uma série de regras de segurança, que ainda hoje temos, não só em termos dos autocarros, observando ainda mais do que as regras oficiais, o uso de máscaras, bem como a comunicação entre guia e clientes através dos áudio-guias, segurança nas entradas e saídas dos autocarros, o distanciamento social nas visitas, dividindo as pessoas em sub-grupos. Portanto, em Julho, começámos a fazer algumas coisas.

Decidimos suspender toda a operação do estrangeiro e potenciar as viagens em Portugal. Podíamos ter encontrado um ou outro destino no estrangeiro, mas achámos que não fazia sentido, até porque de um momento para outro podem fechar as fronteiras e estejamos a sujeitar as pessoas com problemas complicados. Para nós não pode valer tudo.

Aposta em Portugal

Opção Turismo – Então, voltaram-se para Portugal!

David Coelho – Tivemos grupos em Setembro. Ainda vão sair vários grupos em Outubro, e estão programadas outras viagens em Novembro e Dezembro, quase todas temáticas, muito direccionadas para a cultura e roteiros que nos contam histórias, sempre acompanhadas por especialistas, historiadores, gastrónomos, etc.

Opção Turismo – E o Inverno? Esta é uma agência com propostas o ano inteiro?

David Coelho – Somos maioritariamente uma agência de grupos. Para este ano estavam programados 350 grupos. Uma coisa gigantesca.

Não vivemos muito do Verão, embora também tenhamos clientes individuais e empresas, mas o nosso ano comercial começa em Setembro. Tínhamos normalmente 27/28 grupos por mês, num crescendo até Junho. O Julho e o Agosto eram para preparar o novo ano.

Opção Turismo – O problema neste momento é mais do lado do cliente com a falta de confiança?

David Coelho – O cliente acha e nós também achamos. Os riscos estão por todo o lado, em qualquer lado. Pode alcançar qualquer um, por muito cuidado que se tenha, e os mais velhos estão expostos ao maior risco.

Opção Turismo – E a maioria dos vossos clientes são pessoas com mais idade!

David Coelho – Somos uma agência de segmento médio-alto, e muito direccionada para grupos. Assim, o nosso cliente é de um escalão etário superior, com mais medo, mais consciência, maior sentido de responsabilidade e, com mais propensão para maiores patologias. Mas estamos a reinventar.

Opção Turismo – Como?

David Coelho – Tivemos algum azar, mas alguma sorte. Em Lisboa, íamos abrir uma loja com 900 m2 na Avenida da Igreja. Fizemos o contrato de compra e venda, pagámos 120 mil euros num espaço que ia ser absolutamente fabuloso, como não existe outro no mundo. Seria um projecto em que íamos conciliar as viagens, com outras valências. Seria como se fosse um passeio pelo mundo, ou seja, uma loja mundo grande, com um auditório para cerca de 100 pessoas, que teria um espaço gourmet, outro com arranjos florais secos, apresentando telas e pinturas de artistas consagrados, peças raríssimas de mobiliário indo-português, cerâmica com famosas peças de origem japonesa, e uma cafetaria. Além disso, estariam disponíveis 200 m2 de exterior para acções como sunsets ou outras. Temos lá 120 mil euros, a loja continua vincula a nós, será nossa? Não será? Não sabemos e não acreditamos, pois será muito difícil. Mas estamos sempre à procura de novas soluções.

Novo espaço TryVel em Novembro

Opção Turismo – E quais são?

David Coelho – Então, Em Lisboa, através de um amigo meu que tem algumas lojas e com espaços disponíveis junto do Palácio de São Bento, entre a Calçada da Estrela e a Lapa, passaremos a oferecer uma loja com mais de 100 m2 na capital. Possivelmente, a nossa sede passará para lá porque temos possibilidade de ter um espaço de back-office, mas não só. Vamos ter um mini gourmet muito Premium, todas as peças que falei anteriormente, com artesanato muito particular, de excepção, e de artistas consagrados em Portugal na arte japonesa do século XVI e também mobiliário indo-português dos séculos XVII e XVIII, com contadores maravilhosos.

Opção Turismo – Abre quando?

David Coelho – Em Novembro teremos esse conceito implementado em Lisboa. Se vai resultar ou não, não fazemos ideia. Será um espaço aberto ao público, que poderá comprar a viagem, adquirir esses produtos e usufruir.

Vamos continuar a comunicar que somos um espaço de viagens temático-culturais e uma galeria de arte. Não teremos a configuração de uma agência de viagens com balcões de atendimento tradicionais, mas também para atender e vender tudo de uma forma geral.

Queremos trazer para a agência, na parte do gourmet, os produtos nacionais, com vista, sobretudo, a dar uma visibilidade ao enoturismo português. Venderemos também livros. Temos tantos autores que trabalham connosco e achamos justo dar-lhes visibilidade.

Opção Turismo – Têm vendido os vossos produtos a outras agências de viagens?

David Coelho – Na maioria das vezes os grupos são nossos e vendidos a particulares, mas num ou outro caso vendíamos a outros agentes de viagens, e sobre isso tenho andado a repensar. Até final de Agosto do ano passado, os grupos que íamos lançando, iam-se vendendo com facilidade. Os clientes iam confiando em nós e aderiam às nossas viagens.

Tivemos um operador turístico, a You Tour Operator, que foi vendido a um parceiro. Na altura assumimos um compromisso de não concorrência, mas na verdade, o que fazemos eles não fazem. Eles são um operador muito mais generalista, e não vendem com a mesma essência o produto cultural que comercializamos.

Seguramente vamos voltar a comercializar essas viagens temáticas nas agências de viagens, sabendo, porém, que não são muitas aquelas sensibilizadas para o cultural, o que é uma pena porque as margens são, normalmente, muito maiores.

Opção Turismo – E a loja do Porto, mantém-se aberta?

David Coelho – Tem estado aberta. Não se vende quase nada para individuais, mas também estamos a programar alguns grupos com saídas do Porto.

A loja do Porto está a desenvolver-se com as características que estamos a implementar na nova agência de Lisboa. Falta apenas aí a componente gourmet porque quero fazer as coisas com muito critério.

Quero frisar que os nossos espaços não são mortos, mas multidisciplinares, interactivos. Queremos que as pessoas, quando nos visitem, que a viagem comece aí. Queremos que os nossos espaços contem histórias e interajam.

Opção Turismo – Tinham um projecto de franchisar a marca. Em que pé está?

David Coelho – No ano passado estávamos a preparar para franchisar a nossa marca, pois tínhamos alguns interessados, nomeadamente em Lisboa, Estoril/Cascais, Porto/Matosinhos e Viseu. Estavam disponíveis em abrir com o nosso conceito, ou seja, uma agência de viagens acoplada a um espaço café-concerto onde se pudesse fazer apresentações de viagens.

Mesmo assim, não estamos a descartar essa possibilidade porque entendemos que o segmento do luxo muito dificilmente entra em crise, e esse será cada vez mais o nosso segmento (médio-alto). Portanto, vamos começar com este primeiro projecto em Lisboa, e se pegar, podemos vir a lançar uma rede de lojas dentro deste conceito, ou seja, espaços vintages onde também se inclui a venda de viagens.

TryWine mais consolidada

Opção Turismo – A Tryvel está dividida em sub-marcas. Uma delas é a TryWine. Que projectos estão a desenvolver a esse nível?

David Coelho – Temos marcas próprias. O nosso projecto temático intitula-se TryArt e dentro deste conceito temos o HISToRy, uma marca onde temos a parceria com a Universidade Nova e o Centro Nacional de Cultura, com o envolvimento de professores e historiadores.

Temos também o TryWine, um projecto direccionado para o enoturismo, que era tutelado por uma pessoa que estava connosco, mas que neste momento não está disponível. Assim, decidimos dar um passo ainda mais qualificado. Resolvemos ir à procura dos maiores escanções do país. Rodolfo Tristão e Cláudio Martins, assumem o projecto TryWine  e são os novos rostos de uma parceria que permitirá à TryVel potenciar o desenvolvimento de um conceito totalmente inovador preenchido com projecto inéditos, associados ao melhor enoturismo e regiões vitivinícolas do nosso país , mas também com abrangência internacional, logo que os tempos o permirtam.

Já fizemos mais de 20 viagens sobre vinhos e enoturismo dando destaque ao interior do país, à produção do país, potenciando não só as grandes marcas, mas também os pequenos produtores, bem como evidenciando o azeite.

Este projecto visa também desenvolver a área da gastronomia, pelo que convidámos o chef Rui Paula para nosso parceiro. Brevemente também teremos viagens como ele, em Portugal, focadas nas suas origens e na sua vida. Queremos igualmente focar-nos em clientes individuais com provas de vinhos de 2 horas, workshops e até de dois/três dias, conciliando o conceito de vinhos e gastronomia, vinho e arquitectura, até porque hoje em dia as adegas são autênticas maravilhas.

Com a apresentação de um novo logótipo TryWine, a TryVel anuncia para breve a divulgação de diversas iniciativas e projectos direccionados não só para ‘trywiners’, os amantes e curiosos do vinho, como também para empresas, ficando a promessa de provas, considerando o espaço Casca & Friends, no Estoril (e4m frente ao casino), mas também de eventos e viagens muito particulares, personalizadas e criativas, associadas a regiões, vinhos, adegas surpreendentes, que estarão muito para lá do que a imaginação alcança, contribuindo assim, para a divulgação do enoturismo nacional, produtores e seus produtos.

Opção Turismo – Por tudo isto, podemos afirmar que a TryVel não vai parar?

David Coelho – Nós investimos. Somos ousados. Em 7 anos de existência abrimos no Porto, criámos um operador turístico e desenvolvemos uma empresa de software. Nem tudo correu como desejaríamos, mas a TryVel esforça-se por não parar. Conseguimos, apesar de tudo obter uma liquidez e uma solidez razoáveis, que nos tem permitido fazer face a um período duro como o que estamos a atravessar. Calculamos que saberemos esperar durante um ano, e sempre preparados para resistir porque devemos isso à nossa estrutura e aos nossos clientes. Estou convencido que entre Março e Junho do próximo ano a esperança estará de volta, e que lá para Setembro e Outubro as viagens voltarão a pouco e pouco.



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1 COMENTÁRIO

  1. David Coelho, com alguma inquietude e irrequietismo, expõe claramente a atual situação que vivemos e demonstra que está ao leme de um grupo indomável e resiliente ao serviço das pessoas, que para nós são o mais importante. Têm de aparecer ajudas imediatas para apoiar quem com tanto dinamismo deseja continuar a dar trabalho a muita gente e a promover o País como ninguém.

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