Congresso AHP: Hoteleiros prontos para novos desafios

O 32º Congresso Nacional da Hotelaria e Turismo, promovido pela AHP, que decorreu de 10 a 12 deste mês no Algarve (Salgados/Albufeira) e contou com cerca de 600 inscritos, foi um momento de reencontro, mas marcou também o momento de recomeçar e de um novo pensamento como referia o Presidente da República, Marcelo Rebelo de Sousa, na sessão solene de encerramento.

Fazendo jus à temática do congresso, os empresários do sector hotelaria estão convictos que o turismo tem futuro, que o futuro já começou, mas com ele chegam novos e diferentes desafios para os quais tanto o sector privado como o público têm de enfrentar e criar condições para que a actividade possa crescer, num tempo diferente, num contexto diferente, com desafios diferentes.

Não vale a pena neste momento chorar sobre ‘o caldo entornado’, ou seja, não é momento de pensar nas quebras que a pandemia da Covid-19 provocou ao turismo, o sector da economia em Portugal que mais crescia em 2019. Isso é passado. Como também afirmou Marcelo Rebelo de Sousa, que anunciou que vai condecorar brevemente a AHP pelos seus 110 anos de vida, bem como outras entidades do turismo, o país está em pleno renascimento do turismo, defendendo que o sector deve deixar as comparações com o passado e focar-se nas metas e transformações do futuro.

– É evidente que o futuro existe para o turismo e o turismo tem futuro. Já estamos em pleno renascimento do turismo. O problema já não é recuperar, como foi dito, é reconstruir, considerou o Chefe de Estado, que desvalorizou, por isso, as análises comparativas com o passado, exortando os muitos agentes do sector presentes no congresso da hotelaria e turismo a olharem para o futuro.

E porque, neste momento de retoma do turismo, e consequentemente da hotelaria, os desafios são muitos e diferentes, o congresso da AHP debruçou-se sobre questões de financiamento, do problema grave de falta de mão-de-obra que o sector vive nesta fase de recuperação, sendo que o capital humano deve representar uma aposta nacional, da digitalização, da sustentabilidade, dos estrangulamentos com que se deparam a região mais turística do país – o Algarve, sem esquecer a acessibilidade aérea. A componente humana presencial no turismo, questão destacada por vários oradores, é segundo o Presidente da República, insubstituível.

Importância da digitalização

Os desafios passam também pela digitalização. Exemplo é que segundo José Theotónio, CEO do maior grupo hoteleiro português (Pestana Hotel Group) a  pandemia acelerou uma tendência de alteração da forma como os clientes chegam às suas unidades, sendo que os canais directos e plataformas online já representam mais de 80% das vendas. Em 2014 tínhamos entre canais directos e plataformas online cerca de 30% da nossa oferta, em 2019 este valor atingiu aos 50,1%. Com a reabertura dos hotéis após o relaxamento das medidas para conter a pandemia, o peso dos canais directos e das plataformas online nas vendas do Pestana Hotel Group subiu para “mais de 80%.

São novos modelos de negócio como afirmava a secretária de Estado do Turismo, Rita Marques, na sua intervenção na sessão de encerramento do congresso, uma tendência representa um desafio para as empresas hoteleiras, o9 que obriga as empresas a investir muito em termos tecnológicos para falar e conhecer o cliente, por forma a personalizar a oferta.

Outro desafio que os hoteleiros identificam é o da sustentabilidade e da responsabilidade social, uma agenda que todos concordam que veio para ficar, até porque é uma é uma sensibilidade crescente nos principais mercados emissores de turistas.

Capital humano, precisa-se

Manter a qualidade dos serviços turísticos não se coaduna com escassez de recursos humanos. O presidente do Grupo Vila Galé defende que o desafio da escassez de recursos humanos na hotelaria tem várias frentes, da habitação aos próprios salários, mas uma das áreas em que as empresas hoteleiras são chamadas a responder é na criação de carreiras que permitam aos trabalhadores crescer nas empresas.

– Temos que motivar as pessoas, tornar as carreiras mais atractivas. Temos que dar oportunidade de as pessoas crescerem na empresa para outras áreas, afirmou Jorge Rebelo de Almeida, para destacar que cabe aos gestores das empresas hoteleiras criar essas condições, que estão relacionadas com progressão das carreiras, incentivos e aumento da remuneração em função do mérito e da produtividade. Mas também defendeu que para resolver este problema, o Estado tem que intervir facilitando a entrada e permanência de cidadãos de outros países que querem vir trabalhar para Portugal.

– Não podemos trazer gente indiscriminadamente para cá. O recrutamento deve ser selectivo, os trabalhadores devem receber formação e ter condições para viver. Não vale a pena pensarmos em recrutamento se for para as pessoas ficarem a dormir na rua, sem condições, disse ainda.

Confrontado, com a possível ajuda que o Governo pode dar neste sentido, o ministro da Economia, Pedro Siza Vieira, recordou que o Governo empenhou-se no sentido de celebrar um acordo de mobilidade na Comunidade de Países de Língua Portuguesa que vai a este encontro.

– Este acordo já foi assinado, já foi ratificado por dois países, Portugal prepara a sua ratificação e a ideia é a de ter uma comunidade onde as pessoas têm, de facto, o direito de circulação entre os vários países, afirmou aos jornalistas à margem do 32.º Congresso Nacional da Hotelaria e Turismo.

– Acho que aqueles que nos estão próximos pela língua, pela cultura, pela história, obviamente têm um lugar em Portugal, acrescentou.

O acordo de mobilidade foi assinado em Luanda, em 17 de Julho, na XIII Conferência de Chefes de Estado e de Governo da CPLP, na qual Angola assumiu a presidência da organização até 2023.

Em 30 de Julho, o parlamento de Cabo Verde foi o primeiro a aprovar por unanimidade a ratificação do acordo de mobilidade na CPLP, seguindo-se a ratificação por São Tomé e Príncipe, em 17 de Agosto.

A questão da facilitação da circulação tem vindo a ser debatida na CPLP há cerca de duas décadas, mas teve um maior impulso com uma proposta mais concreta apresentada por Portugal na cimeira de Brasília, em 2016, e tornou-se a prioridade da presidência rotativa da organização de Cabo Verde, de 2018 a 2021.

Angola, Brasil, Cabo Verde, Guiné-Bissau, Guiné Equatorial, Moçambique, Portugal, São Tomé e Príncipe e Timor-Leste são os nove Estados-membros da CPLP, organização formada há 25 anos.

O presidente da Associação da Hotelaria de Portugal (AHP), Raul Martins, disse que a realização de um estudo sobre a escassez de mão-de-obra no sector aponta para a falta de 15 mil trabalhadores nos hotéis.

Como solução, os hoteleiros querem ir buscar trabalhadores ao Brasil e à Comunidade dos Países de Língua Portuguesa (CPLP), por exemplo, para colmatar a falta de trabalhadores no sector em Portugal.

Apoios devem continuar

O sector vai igualmente continuar a necessitar de apoios do Governo. Neste sentido, o presidente da AHP apelou para o Governo concretizar os apoios anunciados para as empresas turísticas, enfatizando que o futuro do sector depende disso.

Raul Martins salientou que o futuro mais imediato do turismo depende de dois passos. A primeira condição para que o turismo tenha futuro está associada à vacinação e já foi alcançada: em percentagem de vacinação somos o primeiro país na Europa e o segundo no mundo, um factor que dá confiança aos turistas na hora de viajar. O segundo passo está relacionado com os apoios às empresas. O ano turístico só começou no final de Julho. A retoma já começou, isso é inegável, mas os próximos meses, sobretudo até à Páscoa, serão meses muito complicados.

Uma das medidas que o presidente da AHP considera imprescindível é a manutenção do lay off até à normalização das deslocações das pessoas.

Apesar da alteração do calendário político, com a marcação de eleições legislativas antecipadas para 30 de Janeiro, o presidente da AHP espera que estas medidas possam sair do papel rapidamente.

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