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O pano de fundo para esta odisseia é encantador. Um misto colorido do azul de um mar contrastando com a brancura do areal pintalgado pelas cores de alguns barcos típicos e o sons da azáfama das gentes do mar. Estou na Nazaré, passeando pela marginal sob um sol forte e quente que se mostrou nos meados de maio.

E tudo corria bem até o bichinho da fome se manifestar. Não me afligi muito porque a panóplia de restaurantes naquela zona é grande, tipo porta sim/porta não. Também não tinha alguma preferência, não só porque os desconhecia como era fraca net, não me deixando consultar as plataformas digitais. Contudo, há sempre um mas. Neste caso, uma invasão babélica – será que o termo existe?! -, de cruzeiristas vindos de Lisboa em excursões.

Porque a Caldeirada tanto é famosa aqui como em Peniche, a poucos quilómetros, o petisco estava antecipadamente escolhido: caldeirada.

No jogo da moeda ar, saiu o restaurante “A Moiteira”, simpático com esplanada e nela uma mesa para quatro. Azar, estava reservada. Mais tarde, apercebi-me que a reserva era apenas um “isco” para turista ser enganado. Entrei porque o calor apertava, tal como a fome, e lá dentro estava uma agradável temperatura…. e as mesas vazias!

Chamei o empregado pedi a caldeirada para todos e as entradas. Bom, realmente veio o cou-vér, porque era só pão, manteiga, azeitonas e aqui está mas não temos mais. Nem um queijinho de plático! Mas fomos alertados para o facto de que a caldeirada, como é feita no momento, iria demorar um bocadinho. Tudo calmo, “no problem”.

Entrei. Infelizmente,  começaram a desfilar na rua os bandos de turistas dos barcos, também com fome, e começou o caos.

O empregado que nos seria, quase que atirou as azeitonas pelo ar e correu loucamente para a porta aos gritos – um outro já lá estava – de fish, fish, vem cá, entrerrê, good-good, ao mesmo tempo que lhes mostravam  a ementa. E assim consecutivamente, sempre que um grupo passava. Os mais incautos eram atraídos para a “montra” ao ar livre do peixe, dito, fresco. Recordei Fellini.

Aos vários e de diferentes nacionalidades era sempre mostrado, em bandeja, os peixes “frescos” que ficavam em exposição uns tantos minutos em cada mesa. Os recusados eram, literalmente, atirados para cima do gelo da tal montra, um barco possivelmente típico da região. Ah! Conforme a disposição do empregado, alguns peixes “mudavam” de nome.

Refira-se ainda que a mesma mão que mostrava e revirava os peixes “frescos” também servia para meter as fatias de pão nos cestinhos.

Finalmente chegou a Caldeirada, com um cheiro que desafiava ainda mais o apetite. Uma mexida e, à primeira vista, agradável à vista e com tudo o que é habitual. Apenas um senão, verificado quando se ia repetir: o tipo de peixe era sempre o mesmo. Raia e Safio e nem uma lulinha, mexilhão ou um camarão.

Chamei a atenção para o facto e o empregado, com um olho na porta e outro no tacho, apenas comentou “pois” e disparou para a porta para chamar alguns “cámones” que passavam fish, freche, good-gud, vem cá, very calamares! Nem deu tempo para pedir outra imperial.

Portanto, caros amigos e leitores, fujam  do restaurante (?) “A Moiteira”, na Nazaré. Julgo que pior é impossível!

Luís de Magalhães