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Esta crónica em Moçambique, leva-nos a uma estrada cheia de desafios e de contos muitas vezes inspirados por o “hoje” e muito pouco no “amanhã” destas terras. Por aqui penso que não existe mesmo o tempo do “ontem”. Sinto que sim existe um “ontem” para os que nasceram nos anos ‘70, os do tempo “colonial”, quando a Escola se chamava em algumas cidades, “Escola Técnica de ………..” e outras de “Escola Industrial e Comercial de……….”.

A minha caminhada de Formador em Moçambique tem-me levado por trilhos de surpresa e admiração estupefacta, quando um graduado da secundária do 12º ano, aqui no Norte, não sabe escrever e por vezes nem ler português. Por outro lado pode saber muito bem escrever e ler o “Whatstuguês” ou o chamado português “a la whatsApp”. Passo a dar-vos alguns exemplos emblemáticos de registos no Whatstuguês que muitas vezes leio no meu android: “to axpera”/Jast acaminho/não fiz mx vou fazr dak a uma hr/ Se tens numero tele pesso/aqui não há vaca, ta muito dificil”. Tens que tirar um curso rápido para te adaptar e te ligares à onda desta língua cosmopolita.

As minhas experiências vividas na pré-abertura do “Hotel Pérola de África” (2016), são autênticas pérolas. Esta unidade na Praia Fernão Veloso, em Nacala, tem mais de 100 quartos, uma das maiores da Província, foi considerada na altura o oásis das oportunidades de trabalho no Distrito e mesmo na Província de Nampula. A recepção e selecção dos Curriculum Vitae, foi as dezenas, e obrigou-nos a eleger uma hora de manhã por dia, com ponto de recolha na cabine dos seguranças, à entrada do hotel. Em pouco tempo o pessoal da segurança começou a renovar o seu parque de motas particular. Foi preciso parar a loucura. Havia por vezes uma fila de 100 metros de candidatos.

Algumas lojas dos chineses na zona, que se dedicam ao negócio das fotocópias e CV’s, encheram os bolsos. A foto nos CV’s dos candidatos tinha sempre o mesmo fato e gravata, só mudava a cabeça. E nas mulheres era quase o mesmo, mas essas preferiam mostrar a cor dos vestidos e dos penteados. Na secção das “Habilitações”, muitas vezes aparecia a mesma escola primária, por descuido do chinês e do candidato, quando afinal os utentes eram de origem de mais de 200 km de distância. Na secção das “Aptidões”, aplicavam uma mesma taxa: Assiduidade, simpatia, dinamismo, capacidade de integração, novos desafios, etc. A selecção foi complicada. Numa terra onde a educação se mede pela variedade dos vocábulos do Whatstuguês, há que ter a alma leve para numa entrevista apostar na descoberta de novas potencialidades nessas personalidades.

Durante as minhas acções de formação costumo pedir aos formandos para, em socorro de outros meios, usarem o Whatsatuguês deles como técnica de secretária, a fim de melhor acompanharem as notas dos meus Power Point. Na avaliação dos testes em sistema americano, há dois muito bons e outros dez fracos ou maus. O que significa que nem o Whatstugues chega para se autoavaliarem.

A formação do Saber Fazer nestas terras tem muito a ver com a nossa adaptação aos costumes locais, a compreensão das necessidades essenciais que os formandos passam até a idade adulta.

Com o explicar as questões de higiene e salubridade, para dizer o mínimo, se, por exemplo, na minha casa – e na minha vizinhança -, não entra água da FIPAG (A fornecedora das Águas cá do sitio) há duas semanas?

Finalmente, o meu maior desejo, como formador, é que ao menos os que têm iPhone e/ou android, e muitos megas, encontrem no Google, as respostas às suas mais ínfimas curiosidades. Sejam elas escritas ou não em Whatstuguês, mas que naveguem e estimulem a sua curiosidade e descubram novas formas de se educarem. Que fujam das trivialidades por algum tempo, do futebol, da política, da religião e dos sucessos das últimas da Kizomba.

Emídio Baptista ebconsultoria108@gmail.com