Início Opção Turismo A conjuntura é difícil mas vamos ultrapassar e ser o motor da...

A conjuntura é difícil mas vamos ultrapassar e ser o motor da retoma da economia

O entrevistado de hoje é o presidente do Turismo do Porto e Norte de Portugal (TPNP), Luís Pedro Martins, que recentemente celebrou dois anos à frente da entidade turística.

Começamos por lhe pedir para fazer um breve resumo do que foram estes dois anos de mandato. Um mandato que se pode dizer dividido em dois momentos distintos: o melhor ano de sempre, em 2019, e o pior de sempre, em 2020.

Luís Pedro Martins – A primeira parte é marcada por um período de forte crescimento em todos os indicadores da actividade turística. Depois de ter encontrado a entidade algo desmotivada pelos factores que são sobejamente conhecidos, encetámos um trabalho de proximidade com todos os associados, de credibilização da própria instituição e estabelecemos uma praxis de trabalho em rede, agregando vontades e reestruturando ofertas, com uma forte campanha de promoção e divulgação. Crescemos acima dos dois dígitos, acima dos números registados a nível nacional, e o destino conseguia conquistar mercados que ajudavam a cimentar a percentagem de estada média e a aumentar os proveitos para os operadores. A expectativa era acabar o ano de 2020 com um recorde absoluto, explica o presidente da TPNP. Todavia e infelizmente, nem sempre as ‘coisas’ correm como queremos. E em Março tudo desabou.

Fomos atingidos por uma crise pandémica da qual estas gerações não tinham a mínima noção das suas consequências. Estamos perante o desafio profissional de uma vida. Os indicadores caíram abruptamente, numa primeira fase a prioridade foi acudir a empresários e trabalhadores para tentar salvar empresas e postos de trabalho. Foi uma fase reactiva, de controlo de danos.

Temos de ser proactivos e redimensionar a oferta

Luís Pedro Martins é de opinião que agora temos de ser proactivos e redimensionar a oferta, criar novos produtos, de forma a adequarmo-nos à procura que vai ser muito diferente, quer nos mercados, quer nos segmentos de turismo pesquisados. O que é doloroso é ter de fazer isto e ao mesmo tempo estar a tentar acorrer para salvar empresas, porque não podemos arriscar ficar com uma oferta diminuída em termos de quantidade e de qualidade.

Opção Turismo – Quais as acções ou resultados mais destacáveis nesse período?

Luís Pedro Martins – Estabelecemos, aquando da tomada de posse, a aposta na gastronomia e vinhos, os caminhos de santiago, as estradas históricas e o rio Douro como eixos prioritários para potenciar o turismo no destino. Descentralizar a visitação e aumentar a estada média foram outras das metas a que nos propusemos. No primeiro ano de mandato, os fins-de-semana gastronómicos, talvez a maior iniciativa público privada do país, foram um sucesso.

O nosso entrevistado também refere como acções muito positivas, o facto de os Caminhos de Santiago estarem a ser alvo de um processo de certificação e estar em marcha o projecto Facendo Caminho, consolidando os itinerários na eurorregião Galiza-Norte de Portugal, impulsionando a sustentabilidade dos recursos patrimoniais transfronteiriços e contribuindo para valorizar os recursos naturais.

Apostámos na promoção das estradas históricas como a EN2 e iniciámos um processo de estruturação de outras como são exemplo a EN103 ou a EN222, assim como vários projetos transfronteiriços com a Galiza e com Castela e Leão, destacando o grande projeto de estruturação e promoção da marca Douro/Duero no segmento gastronomia e vinhos, e turismo cultural através da potenciação da grande concentração de bens património da humanidade da bacia do rio, afirma o presidente da TPNP e também da Associação de Turismo do Porto (ATP).

Opção Turismo – Quais os objectivos que não foram conseguidos e quais as razões para que não fossem atingidos?

Luís Pedro Martins – A descentralização dos fluxos turísticos pelos quatro sub-destinos é um objectivo que vamos alcançado aos poucos. Por ironia, foi a pandemia que ajudou a que no Verão de 2020 fossem destinos como o Minho, o Douro ou Trás-os-Montes a terem resultados mais animadores. Mas há um trabalho a fazer nesta matéria, não podemos regressar aos números do passado no pós-pandemia. No que respeita ao aumento de estada média, esse item preenche-se muito com os turistas dos mercados mais longínquos e esses, como se sabe, estão impedidos de nos visitar, pese embora o Brasil e os Estados Unidos estarem no top 10 dos mercados emissores para a região.

Opção Turismo – Dado o contexto pandémico actual, como caracteriza o estado do turismo na sua região?

Luís Pedro Martins – Vivemos um contexto difícil, como não podia deixar de ser. Cerca de 60 por cento das unidades hoteleiras no Grande Porto e um pouco mais nos restantes dub-destinos têm a atividade suspensa. Alguns números dão-nos alento, como termos passado a ser a segunda região no indicador dormidas de residentes, mas não passa de isso mesmo, um alento. A conjuntura é difícil, mas estou convencido que a vamos ultrapassar e voltar a ser o motor da retoma da economia portuguesa, mal a situação pandémica esteja, pelo menos, controlada. Continue o Governo a apoiar as empresas, garantido a manutenção dos postos de trabalho e a qualidade de serviço que oferecíamos antes da pandemia e estou certo de que, uma vez mais, venceremos esta crise.

No entanto, o presidente da TPNP considera que para tal é necessário aumentar, urgentemente, as linhas de apoio, assim como prorrogar as moratórias, única forma possível de as empresas conseguirem cumprir os seus compromissos e manterem-se em atividade.

Opção Turismo – Falou recentemente numa retoma do turismo na Região. Para quando antevê que isso possa acontecer?

Luís Pedro Martins – Há um grande grau de incerteza quando se fala de retoma, porque não sabemos como vai evoluir a crise sanitária. Numa primeira fase, tendíamos a pensar que a Páscoa deste ano seria uma inversão de ciclo, mas nessa altura não adivinhávamos uma terceira vaga com as consequências devastadoras que está a ter. Correndo o risco de estar a fazer futurologia, acredito que neste Verão já sentiremos uma melhoria significativa e, prevendo que até final do ano toda a população esteja vacinada, um arranque em força na Páscoa de 2022. O nosso trabalho está orientado para recuperarmos até ao final de 2023 os indicadores de desempenho do destino conseguidos em 2019.

Opção Turismo – O TPNP pretende criar um Observatório Regional de Turismo. Pode avançar com o que se pretende?

Luís Pedro Martins – Trata-se de um projecto cujo investimento advém de uma candidatura à CCDRN, que será complementado com um projecto cruzado com a RIPTUR e um projecto igualmente candidatado à FCT. Visa dotar o Turismo do Porto e Norte de informação relevante, através da estruturação e montagem de ‘dashboard’ da actividade turística, da produção de infraestrutura tecnológica e de ‘balance score cardboard’, permitindo dispor de informação, em tempo real, sobre a evolução da oferta e dos comportamentos da procura turística do destino do Porto e Norte de Portugal e dos respectivos mercados emissores.

Depois desta explicação, podemos dizer que se trata de dotar a Região com um instrumento fundamental para a gestão do destino, nomeadamente para apoiar a tomada de decisão no que se refere ao ‘marketing’ e à comunicação.

Mais concretamente e segundo inferimos das palavras do responsável pelo turismo e promoção do Porto e Região Norte, esta actividade visa assim recolher, organizar e disponibilizar informação turística que permita uma medição da identidade digital (atractividade e posicionamento nos mercados); análise de comportamentos turísticos (dados turísticos reais); criação de plataforma de visualização da informação e criação de relatórios turísticos e de gestão periódicos.

Opção Turismo – Como se comportou, mesmo com a pandemia, o mercado interno em 2020?

Luís Pedro Martins O mercado interno foi o que nos permitiu um pequeno balão de oxigénio e que foi assegurando a operação. No entanto, em relação a período homólogo de 2019, estimamos que as quebras em termos de dormidas totais na ordem dos 60 por cento, tal como os proveitos totais. Números sobretudo ditados pelas quebras nos mercados externos, tão relevantes no Porto e Norte.

Quanto ao que tem sido mais procurado na Região nestes tempos de pandemia, pode dizer-se que são actividades e as unidades hoteleiras que têm grandes espaços ao ar livre, que propõem experiências autênticas e em contacto directo com a natureza. Ou seja, áreas como o wellness, o Turismo de Natureza e Ativo, o glamping, que tiveram comportamentos interessantes enquanto se podia circular. Estamos em crer que depois do desconfinamento estes territórios voltarão a ser muito procurados, comenta o nosso interlocutor, desvendando que a TPNP já avançou com um ambicioso plano de dinamização do termalismo, ao mesmo tempo que vai reforçar a oferta com outras propostas neste segmento. Ainda nesse sentido, foi criada a marca Termas do Porto e Norte de Portugal, um trabalho realizado em parceira com a Associação de Termas de Portugal.

Opção Turismo – Dos tradicionais mercados internacionais geradores de turismo para a Região, qual ou quais serão mais rapidamente recuperados? Porquê?

Luís Pedro MartinsO mercado espanhol, por razões óbvias, será aquele que regressara mais rapidamente ao nosso destino.

Destaque-se que tanto a TPNP como ATP estão a trabalhar a promoção junto dos mercados mais tradicionais, como a França, Reino Unido, Países Baixos, sendo, desde as zero horas do dia 01 de Janeiro, decorre a campanha “O Norte Lá em Cima”, num esforço de atingir, no imediato, o mercado internacional de proximidade.

Todavia e uma vez mais, tudo são previsões, pois basta que uma das rotas aéreas habituais não venha a ser retomada para alterar esta expectativa.

Luís Pedro Martins – Voltando a ressalvar a dependência da evolução da pandemia para a aplicação de qualquer estratégia, pretende-se, no quarto trimestre de 2021, intensificar a promoção internacional nos mercados de longa distância, que fazem parte do TOP 10 de maior fluxo para a região, concretamente o Brasil e os Estados Unidos da América, mercados em crescimento e muito importantes para aumentar a estada média na região e esbater a sazonalidade. Sabemos também que o mercado brasileiro irá retomar a sua procura assim que as rotas aéreas sejam repostas, a vontade de viajar é muita. Num estudo recente ao mercado brasileiro verificámos que mais de 70% dos inquiridos manifestaram vontade de viajar logo que lhes seja permitido, em claro contraste com o mercado britânico onde apenas 30% manifestavam a mesma intenção O Norte fica a ganhar, pois o mercado brasileiro é o nosso terceiro mercado emissor.

Opção Turismo – Aeroporto Francisco Sá Carneiro ‘versus’ TAP. Muito concretamente, o que quer a TPNP e a ATP da transportadora aérea nacional de bandeira?

Luís Pedro Martins – Essa é uma pergunta que também devemos fazer à TAP. Qual a importância que a TAP dá ao Norte e ao Centro do País? Queremos que a TAP seja, como diz, isso mesmo, uma companhia de bandeira, que sirva todo o País e não só uma parte dele. Queremos que a TAP continue a ser um parceiro estratégico, mas é igualmente necessário que a TAP veja no Norte um parceiro estratégico.

O presidente do TPNP considerou que o programa de retoma de operações da TAP apresentado em Maio passado pela empresa era insultuoso para a região.

Na opinião do responsável esse programa não levava em conta a importância económica deste destino, apresentava um regresso da operação totalmente desproporcionado entre aeroportos. Apesar de compreender as dificuldades pelas quais passam as companhias aéreas e até a necessidade de colocar mais “carga” no aeroporto onde está concentrada grande parte da procura e, por isso, mesmo grande parte da logística da empresa, diz não estar de acordo com a desproporção que o programa foi apresentado.

Quando as coisas normalizarem, somos credores de pedir à TAP os mesmos níveis de operacionalidade que existiam em Fevereiro de 2020, pelo menos a mesma proporcionalidade, promete.

A concluir esta entrevista e como última pergunta, perguntámos em que ponto está reactivação da linha ferroviária do Douro até Espanha.

Luís Pedro Martins – O comboio é fulcral para dinamizar o turismo na região do Douro. Defendemos a reactivação da linha do Douro até Salamanca, 35 anos depois do encerramento do lado espanhol. A melhoria da oferta ferroviária no Douro confere vantagens, a começar por uma distribuição mais equilibrada de turistas pela região. A experiência no Douro torna-se mais rica e permite um verdadeiro “mergulho” nas suas margens. Poder experienciar a paisagem a bordo do comboio é inesquecível. 

Apostar na linha do Douro é permitir a abertura de um novo “corredor” com a região espanhola de Castela e Leão.

Para tal têm sido realizadas várias reuniões e identificados produtos turísticos comuns, como a rota dos vinhos Douro/Duero e os patrimónios mundiais da Humanidade, dos dois lados da fronteira. Também é sabido que o ministro das Infraestruturas e da Habitação, Pedro Nuno Santos, está empenhado nesta questão e que defende a Linha do Douro. Infelizmente o tema não mereceu o mesmo acolhimento por parte seu homólogo.

Não vamos desistir da Linha do Douro, conclui Luís Pedro Martins.

@OpçãoTurismo-FEV2021



Mais notícias em OPÇÃO TURISMO Siga-nos no FaceBook , Instabram ou no Twitter

DEIXE UMA RESPOSTA

Please enter your comment!
Please enter your name here