O mapa do turismo português precisa de novos caminhos e a margem para crescer em polos saturados como Lisboa ou o Algarve esgotou-se. A mensagem central partiu de Álvaro Santos Pereira, governador do Banco de Portugal, que abriu a VIII Cimeira do Turismo Português com um apelo inequívoco à descentralização e ao salto de valor no setor.
Diante da plateia reunida pela Confederação do Turismo de Portugal (CTP), o responsável da instituição financeira frisou que o futuro passa pela qualidade, diversidade e exigência — metas que só serão alcançáveis, sublinhou, com ganhos reais de produtividade e maior valor acrescentado.
Habitação, salários e atração de talento
Um dos pontos mais críticos da intervenção incidiu sobre a crise habitacional e o seu impacto direto na capacidade de reter trabalhadores, num setor onde o salário médio (1.145 euros) continua manifestamente abaixo da média nacional (1.686 euros).
Álvaro Santos Pereira advertiu que os custos de habitação atingiram níveis insustentáveis para quem trabalha no turismo. Para o governador, a atração de mão-de-obra — nacional ou imigrante — está indissociavelmente ligada à criação de habitação pública e social:
“Só vamos atrair mais mão-de-obra se, aliada a uma política de turismo, tivermos uma política que aumenta a oferta habitacional e aumenta a oferta da habitação pública.”
Inteligência Artificial e a emergência do Novo Aeroporto
Ao analisar a conjuntura global, o governador identificou vários fatores de incerteza — desde tensões geopolíticas ao impacto da inflação no petróleo, passando pelas alterações climáticas e a pressão turística já visível em determinados polos.
Contudo, destacou a Inteligência Artificial como uma das transformações mais profundas a curto e médio prazo. Citando dados da Booking, lembrou que 67% dos viajantes já utilizam IA e 89% pretendem fazê-lo, com uma parcela significativa disposta a delegar decisões de viagem de forma autónoma. O alerta para os agentes do setor foi claro: a tecnologia é uma oportunidade massiva, mas converter-se-á num risco grave para quem não adaptar as suas plataformas às exigências das rotas digitais.
Por fim, o atraso no novo aeroporto de Lisboa (NAL) mereceu uma das notas mais duras da intervenção. O governador considerou inaceitável que o país permaneça décadas à espera de uma infraestrutura vital:
“Como país, não é minimamente aceitável que estejamos décadas à espera de um aeroporto essencial.”
Lembrando a fasquia internacional — como os quatro anos que a Turquia levou a erguer o mega-aeroporto de Istambul —, Álvaro Santos Pereira alertou que a meta prevista pela ANA para Alcochete (2035-2036) é demasiado distante e que qualquer novo atraso penalizará gravemente a economia nacional.





