O turismo português entrou numa fase de crescimento mais moderado, que Francisco Calheiros considera natural depois de uma década de forte expansão.
Na abertura da VIII Cimeira do Turismo Português, que decorreu esta segunda-feira, 28 de setembro, em Lisboa, o presidente da Confederação do Turismo de Portugal (CTP) defendeu uma mudança de foco para a criação de valor e deixou ao Governo um conjunto de exigências para o setor, incluindo a simplificação de regras e licenças, a redução estrutural da carga fiscal e a resolução dos problemas de mão de obra.
“Há uma realidade que devemos encarar com clareza e sem medos ou tabus: o crescimento do turismo em Portugal está mais moderado”, afirmou Francisco Calheiros no Salão Nobre do Four Seasons Hotel Ritz Lisboa, naquela que foi a sua última Cimeira do Turismo Português enquanto presidente da CTP.
O responsável considera que a desaceleração dos ritmos de crescimento não deve ser encarada como um sinal negativo. “Deixámos para trás os ritmos de crescimento a dois dígitos que caracterizaram os anos anteriores e isso não é motivo de preocupação. É, pelo contrário, um sinal de maturidade”, afirmou.
Para Calheiros, a evolução do setor deve agora assentar menos no aumento da escala e mais na capacidade de gerar valor. “Fechámos o ciclo de crescimento em escala para abrir a era do crescimento do turismo em valor”, defendeu.
O presidente da CTP recordou que, entre 2009 e 2019, o turismo em Portugal praticamente duplicou, considerando que ritmos dessa dimensão são difíceis de repetir. Depois dos impactos provocados pela crise financeira e pela pandemia, Portugal recuperou em 2022 os níveis turísticos registados em 2019, tendo voltado a crescer em 2024 e 2025.
Os dados mais recentes apontados por Calheiros mostram que a atividade continua a crescer em 2026, embora a um ritmo inferior ao registado anteriormente. Entre janeiro e julho, as dormidas aumentaram 1,5%, enquanto as receitas de viagens e turismo cresceram 4%, segundo os dados mais recentes do Banco de Portugal referidos pelo presidente da CTP.
“Se 2026 fosse igual a 2025, seria um ano positivo. Na realidade já estamos a crescer em relação ao ano passado, pelo que 2026 será um ano bom para o Turismo em Portugal”, afirmou.
Três prioridades para a próxima década
Na perspetiva da CTP, a evolução do setor terá de ser acompanhada por mudanças nas empresas e na forma como o turismo é desenvolvido. Calheiros identificou três áreas que considera particularmente relevantes para os próximos anos: inteligência artificial, sustentabilidade e qualificação dos trabalhadores.
“A inteligência artificial está a alterar a forma como se planeia uma viagem e as alterações climáticas estão a alterar para onde e quando se viaja”, afirmou.
Sobre a inteligência artificial, defendeu que as empresas, sobretudo as de menor dimensão, precisam de apoio para desenvolver competências nesta área. Já a sustentabilidade, considerou, deixou de ser apenas uma ferramenta de comunicação para assumir uma importância crescente na competitividade dos destinos.
“A sustentabilidade deixou de ser um argumento de marketing para passar a ser uma condição de acesso aos mercados mais exigentes e às gerações mais jovens de viajantes”, afirmou.
Na área dos recursos humanos, Calheiros destacou a necessidade de continuar a investir na qualificação. “Nenhuma tecnologia substitui a hospitalidade genuína que sempre distinguiu Portugal”, afirmou, defendendo trabalhadores “bem formados, bem pagos e orgulhosos da profissão que escolheram”.
CTP pede “Simplex para o Turismo”
A simplificação administrativa foi uma das principais reivindicações deixadas por Francisco Calheiros ao Governo.
“É necessário, por exemplo, um Simplex para o Turismo, uma simplificação de regras e de licenças que facilite a execução de novos investimentos”, afirmou.
O presidente da CTP defendeu também uma redução estrutural da carga fiscal para empresas e particulares e voltou a apontar a falta de mão de obra como um dos problemas que continuam a condicionar a atividade turística.
Na legislação laboral, pediu a retoma das negociações entre os parceiros sociais, admitindo que o processo possa ser desenvolvido noutros moldes. “O País precisa de uma Legislação Laboral mais moderna e mais adaptada aos novos tempos”, afirmou, considerando que o processo anteriormente iniciado foi prejudicado pelo que classificou como “demasiado radicalismo”.
“Estes não são pedidos de um setor. São condições para que Portugal continue a crescer”, acrescentou.
A segurança foi outro dos temas abordados pelo presidente da CTP, que defendeu a continuidade da atenção dada às zonas consideradas estratégicas para a atividade turística.
Aeroporto continua entre as prioridades
Francisco Calheiros voltou também a colocar a capacidade aeroportuária entre os principais desafios para o crescimento do turismo português.
“Não tenhamos dúvidas de que os constrangimentos do maior aeroporto do país são o principal obstáculo ao crescimento do Turismo em Portugal”, afirmou.
O presidente da CTP defendeu que o Governo mantenha o foco nos principais dossiers do transporte aéreo, incluindo a privatização da TAP, o futuro do hub de Lisboa e as ligações aéreas às regiões autónomas e aos países de língua portuguesa.
Sobre o novo aeroporto, pediu que o processo não sofra novos atrasos e defendeu ainda que seja considerada uma solução aeroportuária intermédia para responder às necessidades de Lisboa antes da entrada em funcionamento de Alcochete.
Moedas admite excesso de turismo em algumas zonas de Lisboa
Na sessão de abertura, Carlos Moedas reconheceu a existência de pressão turística localizada na capital, embora tenha distinguido essa realidade de uma situação generalizada na cidade.
“Há excesso de turismo em certas zonas da cidade”, afirmou o presidente da Câmara Municipal de Lisboa, defendendo a necessidade de apoio do Governo para regular o impacto da atividade turística.
Segundo os números apresentados pelo autarca, cerca de 500 mil pessoas entram diariamente em Lisboa, das quais aproximadamente 50 mil são turistas. Moedas sublinhou, contudo, que a cidade, no seu conjunto, não enfrenta uma situação de excesso de turismo.
Montenegro defende mais valor para a economia
Luís Montenegro participou na abertura da Cimeira através de uma intervenção em vídeo, na qual destacou as condições que, na sua perspetiva, colocam Portugal numa posição favorável no contexto internacional.
“A nossa estabilidade política, económica, financeira, a segurança, a nossa localização, colocam-nos numa posição que devemos saber aproveitar”, afirmou o primeiro-ministro.
Montenegro defendeu ainda que o crescimento da atividade turística deve traduzir-se numa maior criação de valor para o país.
“Cabe-nos criar as condições para que o turismo continue a crescer, gerando mais valor para a economia e dando mais oportunidade aos trabalhadores portugueses”, sublinhou.
A VIII Cimeira do Turismo Português decorreu sob o tema “Portugal e Turismo: uma relação de crescimento” e marcou a última participação de Francisco Calheiros numa sessão de abertura enquanto presidente da CTP, cargo que ocupa há 15 anos.





