A evolução do preço do jet fuel deverá continuar a pressionar o turismo em 2027, num contexto em que o consumidor se mostra cada vez mais sensível ao preço das viagens. O alerta foi deixado por Sónia Regateiro, Chief Operating Officer (COO) da Solférias, durante o evento Bye Bye Verão, que reuniu 305 participantes e serviu também para apresentar a programação de inverno 2026/2027 do operador.
A responsável considera que a instabilidade associada aos combustíveis deverá prolongar-se e ter reflexos nos preços das viagens, numa altura em que a Solférias antecipa encerrar 2026 com um volume de vendas próximo do registado em 2025, mas com uma rentabilidade inferior à inicialmente prevista.
“A questão é que esta instabilidade do fuel vai-se prolongar. Não se sabe bem até quando”, afirmou Sónia Regateiro, considerando que, por isso, mesmo uma eventual resolução dos conflitos que atualmente afetam os mercados não deverá traduzir-se automaticamente numa descida acentuada do custo do combustível para a aviação. “Mesmo que os conflitos acabem amanhã, não vão afetar drasticamente, nem vão provocar uma queda abismal do preço do jet fuel. Então, a tendência é para que os preços subam.”
Para a responsável, o impacto poderá fazer-se sentir diretamente no comportamento do consumidor. “Sabemos que o mercado vai-se ressentir”, afirmou, lembrando que, perante o aumento dos custos quotidianos, as viagens podem acabar por ser uma das despesas colocadas em causa pelas famílias. “O carro tem que continuar a andar, em muitas famílias, porque é o meio de transporte, não há alternativa, as idas aos supermercados têm que se manter, onde é que vamos cortar? Se calhar é nas viagens.”
Consumidor cada vez mais sensível ao preço
A pressão sobre os preços já terá sido visível durante o verão, segundo Sónia Regateiro, que descreve o mercado como “muito sensível” ao preço. A responsável aponta para a quantidade de ofertas disponibilizadas ao longo da época, incluindo produtos de férias de uma semana em regime tudo incluído a valores na ordem dos 800 e 900 euros.
“Tivemos que penalizar muito a nossa margem e muitas operações com reduções de acompanhantes e tudo mais, que é precisamente para a questão da sensibilidade ao preço”, explicou.
Perante este cenário, a responsável defende que a oferta deverá adaptar-se às condições do mercado durante o próximo ano. “O que eu espero é que no próximo ano a oferta se ajuste a estas dificuldades do mercado e que se consiga equilibrar um bocadinho mais o mercado.”
Solférias deverá terminar 2026 sem perdas, mas longe das metas iniciais
O desempenho comercial de 2026 acabou por ficar aquém das expectativas que a empresa tinha traçado no início do ano. Sónia Regateiro explica que, depois de um início de verão marcado por alguma apreensão, os resultados de julho surpreenderam pela positiva e agosto acabou por apresentar um desempenho favorável tanto nas vendas como na rentabilidade.
“Quando tirámos os resultados de julho, fiquei surpreendida pela positiva, porque estava à espera de um mês bem pior do que aquilo que os números demonstraram. O agosto foi um bom mês, quer de vendas, quer de rentabilidade.”
Ainda assim, a projeção atual aponta para um volume de vendas semelhante ao de 2025, afastando a possibilidade de concretizar o crescimento de dois dígitos inicialmente previsto: “A projeção atual é que vamos chegar ao volume de vendas mais ou menos de 2025. E não vamos ter o crescimento de dois dígitos que estávamos a contar no início do ano, mas em termos de rentabilidade vamos ser altamente penalizados.”
Sónia Regateiro rejeita, contudo, a possibilidade de a Solférias terminar o exercício com prejuízos. “A Solférias não vai perder dinheiro. Continuamos a ser uma empresa sustentável. Não vamos ganhar o que queríamos, mas não há perdas”, esclareceu, referindo-se ao conjunto do ano.
Egito ultrapassa Cabo Verde em agosto pela primeira vez
Entre os destinos trabalhados pela Solférias, a principal surpresa do verão foi o Egito. O operador aumentou a operação para cinco voos semanais e, pela primeira vez, o destino ultrapassou Cabo Verde em agosto, tornando-se o destino número um da empresa nesse mês.
“Pela primeira vez voámos com cinco voos para o Egito, cinco voos semanais, e pela primeira vez na história da Solférias, o Egito foi destino número um em agosto à frente de Cabo Verde”, destacou Sónia Regateiro.
A evolução do Egito ocorreu num contexto de redução das vendas para Cabo Verde, explicada em parte pela ausência, este ano, de uma operação exclusiva Porto–Sal que tinha sido realizada pela Solférias no verão anterior.

“Cabo Verde teve um decréscimo de vendas, porque nós, o ano passado, tivemos um voo Porto de Sal exclusivo da Solférias, que este ano não tivemos. Ou seja, são menos de 3.500 passageiros no global do verão, que este ano não houve. Por isso, o Egito, com os cinco voos semanais, conseguiu bater Cabo Verde.”
Apesar das diferenças de desempenho entre operações, a responsável sublinha que o operador não terminou nenhuma das operações de verão com resultado negativo. Entre os produtos mais penalizados esteve El Alamein, no Egito, devido ao nível de preços do produto e ao impacto dos custos de combustível e do contexto geopolítico.
“El Alamein, por exemplo, porque era um produto bastante caro. E é um produto que eu tenho imensa pena porque é um produto de turismo fantástico, uma praia fantástica, mas os hotéis são caros. São caros e, com o impacto que teve o aumento de fuel, a guerra e isso tudo, foi uma operação que foi penalizada.”
Na Tunísia, as operações continentais, como a de Enfidha, também tiveram um desempenho mais exigente. Ainda assim, no balanço global, Sónia Regateiro considera que todas as operações contribuíram positivamente para o resultado final. “As operações no final são todas positivas, umas melhores, outras piores”, afirmou. “Em termos globais não fechámos com nenhuma operação negativa.”
Brasil esgota operação de final de ano
Para o período de Natal e Ano Novo, a procura apresenta níveis particularmente elevados em vários destinos.“Os três aviões que temos para o Brasil, o Maceió, o Salvador e o Natal estão esgotados”, afirma a COO, com os três voos previstos para Maceió, Salvador e Natal vendidos na totalidade.
Também Cabo Verde apresenta uma disponibilidade residual para a época festiva. À partida de Lisboa e Porto, restavam quatro lugares para o dia 27 de dezembro, enquanto Senegal e São Tomé já se encontravam completos.
Entre as opções ainda disponíveis está o Funchal, com dois voos charter previstos, um de Lisboa e outro do Porto, a 29 de dezembro, e um voo adicional do Porto no dia 30, ainda com disponibilidade. A Solférias mantém igualmente bloqueios com a SATA para São Miguel, com partida a 30 de dezembro.
A programação para o Dubai permanece, por outro lado, condicionada. O operador dispõe de bloqueios com a Emirates, mas ainda não está definida a realização dessas operações. “Não acredito, porque enquanto o Dubai esteja no portal das comunidades como não recomendado, vai ser difícil o destino retomar”, afirmou Sónia Regateiro.
A restante oferta de final de ano assenta sobretudo na programação disponível através de voos regulares.
Solférias prepara novidades para o verão de 2027
Para o próximo verão, a Solférias pretende manter a operação charter para Maceió à partida de Lisboa, embora a negociação com a companhia aérea ainda não esteja concluída.
“A nossa intenção para já é manter a operação de Maceió, em charter, com partida de Lisboa. Ainda não podemos anunciar porque não temos a negociação finalizada com a companhia aérea”, explicou a diretora de operações.
A responsável admite ainda a entrada de uma nova operação no verão de 2027, embora não revele, para já, o destino ou os detalhes. “Se tudo correr bem, vai haver uma novidade”, afirmou. “Como ainda estamos em negociações com as companhias aéreas, não vos posso adiantar nada.”
Sónia Regateiro deixa, contudo, uma condição para que a nova operação possa avançar: “Sem avião não há novidades para ninguém.”
No médio curso, o Egito continuará a assumir um papel central na programação da Solférias. O operador pretende manter os cinco voos semanais, embora esteja a preparar alterações aos dias de operação com o objetivo de melhorar os horários oferecidos aos passageiros.
“O Egito vai manter, tal e qual. O que vamos fazer é alterar os dias de operação”, explicou. A responsável deu como exemplo El Alamein, que deverá passar para a quarta-feira, ressalvando que os ajustes ainda estão a ser trabalhados.
“Vamos tentar fazer alguns ajustes nas operações, porque os voos do Egito começam sempre lá e, com a diferença de horário, às vezes é muito injusta a questão dos horários. Vamos tentar fazer algum ajuste de dias de operação, mas vamos manter os cinco voos para o Egito.”
Um ”Bye Bye Verão” para agradecer aos agentes
O próprio formato do encontro deste ano refletiu, segundo Sónia Regateiro, o contexto vivido pelo sector. Em vez do habitual evento de antecipação do Réveillon, a Solférias optou por organizar o Bye Bye Verão, num formato mais descontraído e com uma dimensão mais contida.
A mudança esteve diretamente relacionada com o desempenho difícil do ano e com a necessidade de controlar custos, mas também com a vontade de manter a proximidade com o mercado.
“Nós ponderámos em não fazer de todo as festas de antecipação de Réveillon, por uma questão de contenção de custos”, explicou. Ao mesmo tempo, existia, segundo a responsável, “uma dualidade de sentimentos”, uma vez que a empresa não queria deixar de estar junto dos agentes de viagens.
“Tínhamos de estar próximos, tínhamos de dar a cara, tínhamos de voltar a encontrar o trade e dizer um obrigado.” Foi nesse contexto que nasceu o Bye Bye Verão, uma iniciativa que reuniu 305 participantes e que pretendeu assinalar o final da época e agradecer o trabalho desenvolvido pelos parceiros da distribuição.
“Passámos da antecipação do Réveillon para uma festa mais singela, mais descontraída, mas com muito coração”, resumiu Sónia Regateiro.
E o nome escolhido pretende também traduzir uma expectativa de continuidade. “Chamámos-lhe o Bye Bye Verão, que não é um bye bye, mas um até já, porque eu estou ansiosa que chegue o verão de 2027.”






