Era uma vez uma daquelas histórias que provam que ter “sangue azul” não garante imunidade contra a boa e velha cobrança judicial.
O Dorchester, um dos hotéis mais exclusivos e pomposos de Mayfair, em Londres, viu-se obrigado a trocar a proverbial luva de pelica pelo martelo do juiz. Tudo porque o xeque Nasser bin Abdullah al-Thani — membro da família real do Catar, ex-vice-presidente do Málaga CF e nobre sem qualquer cargo público a defender — decidiu fazer da suite de cinco estrelas o seu lar, doce lar, acumulando uma fatura astronómica de 458.000 libras (qualquer coisa como 533.000 euros).
Após meses a desfrutar do luxo britânico sem que o cartão passasse, a gerência do hotel perdeu a paciência em março e levou o aristocrata a tribunal para reaver o dinheiro dos quartos, das despesas extras e, claro, dos respetivos juros de mora. No final, o juiz deu “luz verde” e o Dorchester pôde finalmente penhorar e mandar para leilão o magnífico carro do xeque para cobrir o calote real.
Agora imagine-se esta mesma cena transposta para o coração de Lisboa, num prestigiado cinco estrelas. O xeque chega com a sua comitiva, instala-se na suíte presidencial e vai deixando passar as estações do ano enquanto pede lavandaria diária, garrafas de vinho do Porto vintage e doses duplas de pastéis de nata ao room service.
Ao fim de seis meses, o diretor do hotel, já à beira de um ataque de nervos e a ser pressionado pelo departamento de contabilidade, tenta uma abordagem diplomática. O xeque promete que “a transferência de Doha entra amanhã”, mas a única coisa que entra no dia seguinte é a equipa de oficiais de justiça do Tribunal da Comarca de Lisboa.
Se em Londres a penhora recaiu sobre o carro, por cá o desfecho teria um sabor bem mais pitoresco: perante a falta de liquidificadores de ouro ou supercarros estacionados no valet parking, o juiz português decretava a penhora imediata do bólide do xeque na garagem do hotel, com o reboque da EMEL a chegar triunfante para o levar para o parque municipal.
E enquanto o leilão decorria no portal das finanças, o xeque ver-se-ia forçado a fazer o check-out de mala na mão, a trocar o luxo da Avenida por um pastel de bacalhau no Rossio e a apanhar o elétrico 28 para tentar digerir a dívida.
LM





