A ANAV – Associação Nacional das Agências de Viagens contesta a ideia de que o turismo português esteja a atravessar uma quebra generalizada e defende uma leitura mais abrangente dos indicadores oficiais disponíveis para 2026.
Perante as notícias e diferentes interpretações divulgadas nas últimas semanas sobre a evolução do setor, a Associação analisou os dados do INE, Banco de Portugal e Turismo de Portugal e concluiu que os principais indicadores acumulados continuam em terreno positivo, embora revelem um crescimento mais moderado e desigual.
No primeiro semestre de 2026, Portugal recebeu 9,187 milhões de hóspedes estrangeiros, mais 173,7 mil do que no mesmo período do ano anterior, correspondendo a um crescimento de 1,9%. As dormidas de estrangeiros atingiram 25,972 milhões, mais 214,8 mil, numa subida de 0,8%.
Também as receitas externas de viagens e turismo mantiveram uma evolução positiva, alcançando 12,87 mil milhões de euros, mais 522 milhões de euros do que no primeiro semestre de 2025, o equivalente a um crescimento de 4,2%. O saldo da balança turística aumentou 3,9%, para 9,71 mil milhões de euros.
“Os dados oficiais não sustentam a ideia de que o turismo português está a cair. Há crescimento moderado e desigual, com fragilidades que exigem gestão”, afirma Miguel Quintas, presidente da ANAV.
Para o responsável, é essencial distinguir entre uma desaceleração do ritmo de crescimento, alterações na composição dos mercados emissores e uma efetiva redução da atividade turística.
Junho não é o semestre
Um dos indicadores que contribuiu para a percepção de uma eventual quebra foi a evolução das dormidas de estrangeiros em junho, que recuaram 0,6% em termos homólogos.
A ANAV alerta, contudo, para o risco de extrapolar o resultado de um único mês para o comportamento de todo o setor.
Entre janeiro e junho, as dormidas estrangeiras mantiveram um crescimento acumulado de 0,8%, enquanto o número de hóspedes estrangeiros aumentou 1,9%.
“Uma quebra mensal não pode ser apresentada como uma queda do turismo nacional”, sublinha a Associação.
A ANAV considera, por isso, que a análise do desempenho turístico deve privilegiar períodos homólogos comparáveis e distinguir tendências acumuladas de oscilações pontuais.
Crescimento não se explica apenas pelos preços
A Associação rejeita igualmente a ideia de que o aumento das receitas turísticas possa ser explicado apenas pela evolução dos preços.
Embora os valores monetários sejam nominais, os indicadores de volume também aumentaram. No primeiro semestre foram contabilizados mais 173,7 mil hóspedes estrangeiros e mais 214,8 mil dormidas de estrangeiros do que no mesmo período de 2025.
“O crescimento de hóspedes e dormidas confirma que não estamos perante uma realidade explicável apenas pelo aumento de preços. Existe crescimento físico da atividade, ainda que a um ritmo mais moderado”, considera Miguel Quintas.
Para a ANAV, a conjugação da evolução das receitas com o aumento efetivo de hóspedes e dormidas permite afastar uma leitura baseada exclusivamente na inflação ou na subida dos preços médios praticados no setor.
Mercados emissores estão a mudar
A Associação chama igualmente a atenção para as diferenças significativas entre os principais mercados emissores, defendendo que a evolução negativa de um mercado específico não deve ser transformada numa conclusão sobre o conjunto do turismo português.
No primeiro semestre, as receitas provenientes do Brasil cresceram 18,1%, seguindo-se os Estados Unidos (+8,0%), Espanha (+7,1%), Alemanha (+4,6%) e Reino Unido (+4,4%).
Em sentido contrário, as receitas provenientes do mercado francês diminuíram 5,7%.
Para a ANAV, estes números revelam sobretudo uma alteração na composição da procura, com mercados em forte crescimento a compensarem parcialmente a evolução menos favorável de outros.
“O desafio está em perceber o que está a acontecer em cada mercado e agir em conformidade, em vez de transformar a quebra de um mercado emissor numa conclusão sobre todo o turismo nacional”, sustenta a Associação.
Proveitos crescem em oito das nove regiões
Também a evolução regional aponta, segundo a ANAV, para um cenário de crescimento desigual, mas não para uma retração generalizada.
No primeiro semestre, oito das nove regiões analisadas registaram crescimento dos proveitos turísticos.
O Alentejo apresentou o maior crescimento, com +9,0%, seguido da Madeira (+8,4%), Algarve (+7,7%), Norte (+5,6%), Açores (+5,6%), Grande Lisboa (+3,4%), Centro (+1,6%) e Península de Setúbal (+1,1%).
A única evolução negativa foi registada no Oeste e Vale do Tejo, com uma variação de -0,6%.
Para a Associação, esta distribuição confirma que existem diferenças relevantes entre territórios, mas que não é possível falar numa quebra transversal da atividade turística em Portugal.
Portugal cresce, mas abaixo do ritmo mundial
A ANAV reconhece, contudo, que existem sinais de abrandamento que não devem ser ignorados.
Em 2025, Portugal registou 29,926 milhões de chegadas internacionais, estabelecendo um novo máximo e crescendo 3,3% face a 2024. No mesmo período, o turismo internacional a nível mundial cresceu cerca de 4,0%.
Para a Associação, crescer abaixo da média mundial deve ser encarado como um sinal para reforçar a competitividade do destino, mas não como evidência de uma inversão da tendência do turismo português.
“Crescer menos do que antes, ou menos do que outros destinos, continua a ser crescer”, salienta a análise da ANAV.
A Associação identifica, neste contexto, três erros que considera particularmente relevantes no atual debate: confundir a evolução de um mês com a do semestre, extrapolar o comportamento de um mercado para o conjunto do país e confundir crescimento em valor com crescimento em volume.
ANAV defende resposta estratégica
Apesar de afastar a ideia de uma quebra generalizada, a ANAV considera que o atual contexto exige uma resposta estratégica por parte das empresas e das entidades públicas.
Entre as principais prioridades estão recuperar os mercados que apresentam uma evolução negativa, aumentar a duração das estadias, distribuir melhor a procura pelo território e ao longo do ano e proteger a rentabilidade das empresas do setor.
“A questão não deve ser saber se o turismo português está a cair, porque os dados acumulados não apontam nesse sentido. A questão é perceber como podemos transformar um crescimento mais moderado numa trajetória sustentável, diversificada e mais rentável para o setor e para o país”, defende Miguel Quintas.
A ANAV considera, assim, fundamental que o debate sobre o desempenho do turismo português em 2026 seja feito com base no conjunto dos indicadores disponíveis e em períodos homólogos comparáveis, distinguindo volume de atividade, receitas, comportamento dos diferentes mercados e evolução regional.
Para a Associação, os números mostram uma realidade que exige atenção e capacidade de resposta, mas não justificam, até ao momento, a narrativa de uma quebra generalizada do turismo português.





