Há quem diga que os caminhos do Senhor são insondáveis, mas os caminhos do departamento imobiliário do Vaticano parecem conduzir, de forma vertiginosamente direta, à recepção de um hotel quatro estrelas.
A notícia caiu como um trovão nos corredores de mármore: a Domus Internationalis Paulus VI, aquele histórico e venerável edifício na Via della Scrofa que há décadas acolhia bispos, cardeais e diplomatas com a sobriedade de quem carrega o peso da fé nas costas, vai trocar as batinas pelos roupões de banho felpudos. É oficial: a Santa Sé entrou mesmo para a indústria hoteleira.
Convenhamos que a localização é de fazer inveja a qualquer gigante do turismo mundial. Encaixado estrategicamente entre a Piazza Navona e o Panteão, o imóvel tem aquela vista para a história que faria até o hóspede mais cético murmurar um “Graças a Deus” na hora de tomar o café da manhã.
A jogada de mestre, revelada pela Administração do Patrimônio da Sé Apostólica (APSA) é uma verdadeira parábola empresarial moderna. A ideia passa por ceder a operação do espaço por 30 anos a um operador hoteleiro privado. Em troca, a empresa assume a módica fatia de 50 a 60 milhões de euros nas obras de reabilitação, enquanto o Vaticano se limita a recolher uns abençoados 5 milhões de euros anuais em aluguel.
Se isto não é multiplicar pães, peixes e metros quadrados, anda lá muito perto. Resta saber se o menu do serviço de quarto incluirá vinho de missa vintage e se o minibar terá direito a bênção especial.
Como em qualquer grande reforma urbana — ou teológica —, a controvérsia não tardou a bater à porta. Se pensa que a oposição política é dura, é porque nunca viu um grupo de eclesiásticos indignados a empunhar canetas-de-tinteiro. As cartas choveram na Secretaria de Estado e na bancada do Papa Leão XIV, com cardeais, bispos e padres em pé de guerra a exigir que o prédio mantenha o seu uso original. Afinal, a perspetiva de ver um espaço de recolhimento diplomático transformado num vai-e-vem de malas de rodinhas e avaliações de quatro estrelas no TripAdvisor deixou o clero em alvoroço.
Deboches à parte, a transição da Via della Scrofa prova que, quando o assunto é rentabilizar patrimônio no coração de Roma, o pragmatismo fala bem alto.
A diplomacia dá agora lugar ao turismo de charme, a oração diária passa a conviver com o late check-out, e a Santa Sé mostra que sabe adaptar-se aos novos tempos. Resta-nos aguardar pela grande inauguração e torcer para que o bellboy (paquete), ao carregar as malas até ao quarto, nos despeça com um solene “Pax tecum… e deseja que chame um táxi para o aeroporto?”.





