Se havia algo que faltava no currículo de audácias da administração americana, a lacuna acaba de ser preenchida e com folha a ouro. Numa jogada que oscila entre o marketing genial e a megalomania pura, o Departamento de Estado dos EUA decidiu celebrar os 250 anos da independência do país com uma inovação histórica: colocar a cara do próprio Presidente, Donald Trump, na capa do passaporte oficial.
Trata-se do “Passaporte Patriota”, um documento de viagem que redefine o conceito de narcisismo institucional. Afinal, por que razão um cidadão haveria de viajar pelo mundo apenas com as imagens dos Pais Fundadores a assinar a Declaração de Independência, quando pode levar no bolso um retrato em grande plano do homem que comanda a Casa Branca? Para compor a obra-prima, a capa junta a imagem de Trump ao texto de 1776 e a uma vistosa bandeira dourada com o número 250. Porque a modéstia, como se sabe, nunca combinou muito bem com o estilo da casa.
A premissa inicial já era digna de comédia: na primeira fase, quem precisasse de renovar o documento na Agência de Passaportes de Washington não tinha escolha. Ou viajava pelo mundo com o rosto de Trump a saudar os agentes de imigração estrangeiros, ou ficava em casa. Agora, perante o que o governo classifica entusiasticamente como uma “demanda massiva” e uma reação “extraordinária”, o programa vai expandir-se. Mais 250 mil exemplares vão ser espalhados pelo país fora. A boa notícia para os mais acanhados? Esta versão passa a ser opcional.
Se a “demanda massiva” se deveu ao amor fervoroso pela foto presidencial ou ao simples facto de as pessoas precisarem desesperadamente de apanhar um avião sem tempo para esquisitices, permanece um mistério que a história julgará.
Mas uma coisa é certa: num mundo onde os líderes políticos costumam esperar por estátuas depois de mortos, estamparem-se a si próprios no documento mais cobiçado do país enquanto ainda estão no cargo é um nível de ousadia que mais ninguém se atreveu a alcançar.
Boa sorte aos cidadãos americanos que tentarem explicar a imagem na alfândega. A viagem, essa, já começa com uma boa anedota no bolso.





