Jamaica: entre a cultura e a natureza, a nação resiliente do Caribe

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Chegamos à Jamaica pelo aroma e pelos sons, antes de chegar pela visão. É o fumo doce e picante do jerk a assar em bidões de metal à beira da estrada, misturado com o cheiro a sal do mar e a terra molhada depois de um aguaceiro tropical. É o reggae que sai de um carro parado num semáforo, o motor de um “route taxi” (táxi partilhado) a buzinar em jeito de cumprimento, o som da cana de açúcar a ser cortada à faca por um vendedor ambulante. Só depois, com o calor já a colar a roupa ao corpo, é que os olhos encontram as extensas praias de areia branca e água azul-turquesa, com as montanhas verdejantes a servirem de fundo.

Imortalizada pelas canções de amor e justiça social de Bob Marley, esta é a ilha onde a natureza, a cultura e a comida se confundem. É o destino onde a expressão “no stress” ganha um novo sentido, apenas pausado no caótico e vertiginoso estilo de condução dos locais. Assumindo-se como uma das maiores ilhas do Caribe, com cerca de três milhões de habitantes, a Jamaica é também uma nação de cidades e gentes com alma, onde o sentimento se mistura com a cultura em cada esquina, em cada prato, em cada conversa de acaso. É essa fusão — entre natureza, música, história e gastronomia — que torna este destino tão único e imortalizado por músicos e escritores (Ian Fleming escreveu aqui uma boa parte da saga de James Bond), por ativistas e políticos.

O ADN da resiliência

Se há uma palavra que atravessa todas as conversas na Jamaica, é resiliência. “Os nossos pais e antepassados passaram muitas dificuldades — sabemos como ser resilientes”, ouvi mais do que uma vez. É uma memória ainda próxima: a de emigrantes que partiram para trabalhar e regressaram confiantes, de um progresso social lento e gradual, de gerações que ainda se lembram de crescer sem luz ou sem casa condigna.

É também dessa memória coletiva que nascem os heróis da ilha. Bob Marley encorajou toda uma nação a acreditar que era possível, tal como o cricket uniu um povo em torno de um sentimento de pertença. Mas a raiz é mais profunda: a maioria dos antepassados dos jamaicanos de hoje eram rebeldes que resistiram à escravatura — está no ADN de um país que se recusou, historicamente, a curvar-se.

Nenhum símbolo representa melhor essa resistência do que os Maroon, descendentes dos escravizados que fugiram e fundaram comunidades livres nas montanhas do interior. As suas cidades históricas — Charles Town, em Portland; Accompong Town, em St. Elizabeth; Maroon Town, em St. James; e Moore Town, também em Portland — continuam vivas hoje, com estrutura de liderança própria e celebrações que atraem visitantes todos os anos, sobretudo em janeiro e fevereiro, quando se assinalam datas importantes da comunidade, incluindo a escolha de novos chefes tribais.

Galeria de fotos

Rita Montez, Opção Turismo (texto e fotografias)*.

*A jornalista viajou a convite da NewBlue e da Secretaria do Turismo da Jamaica.