Passaram já perto de nove meses depois de o furacão Melissa ter varrido a costa sul e oeste da ilha, deixando Montego Bay — a principal porta de entrada turística — como a zona mais afetada. Classificada como a tempestade do século, cujos ventos atingiram os 295 quilómetros por hora, a passagem do Melissa destruiu casas e produções agrícolas de cerca de metade da população. Mais de 130 estradas ficaram bloqueadas, o aeroporto de Montego Bay esteve encerrado apenas alguns dias mas os danos em infraestruturas hoteleiras e residenciais obrigaram a um esforço de reconstrução que ainda hoje se sente. Segundo as autoridades locais, os primeiros meses após a tempestade traduziram-se numa quebra acentuada no número de visitantes, com expectativa de recuperação gradual até ao final do ano.

“Um dos maiores desafios tem sido recuperar as infraestruturas depois do furacão”, contou-me Paula Powell, diretora de Desenvolvimento de Negócios na Europa. Apesar disso, a mensagem que se repete em todas as conversas é a mesma: a Jamaica está a recuperar mais depressa do que se temia.

Autêntica, diversa e “huge”

Durante a visita à ilha, perguntei a Odette Soberam-Dyer, diretora regional da Jamaica na Secretaria do Turismo nacional o que torna o país competitivo face aos restantes destinos da região. A resposta veio sem hesitação: a cultura, a vibe, a diversidade. “É um destino globalmente reconhecido — somos tão huge“, resumiu, com o orgulho de quem sabe que a marca Jamaica ultrapassa em muito o tamanho real do país. “A Jamaica autêntica é o melhor recurso que temos para oferecer a quem nos visita”, repetiu, como quem recusa qualquer versão encenada da ilha para consumo turístico.

Cerca de 70% dos visitantes que chegam à ilha são norte-americanos, uma dependência que acaba por se refletir nas contas do turismo local sempre que fenómenos como a atual crise económica e o clima de receio em viajar nos Estados Unidos, agravado por restrições de viagem surgem. O mercado europeu regista uma ligeira quebra, mas a América Latina está em franco crescimento — e a Europa, garantem-me, também vai voltar a crescer. O mercado português, apesar de pouco expressivo, voltou também a registar uma subida depois da inauguração, em 2025, da ligação aérea directa da World2Fly a partir de Lisboa. Os voos charter são semanais e realizam-se entre os meses de junho e setembro. Com esta mudança, o número de turistas portugueses que visitaram a Jamaica passou de 466 para os 6 453 em 2025.

A nível global, os números confirmam a travessia de um ano difícil: depois de um recorde de mais de 4 milhões de visitantes em 2024, a Jamaica fechou 2025 com 3,7 milhões — uma quebra de cerca de 8%, resultado direto do impacto do furacão Melissa nos últimos meses do ano. Ainda assim, o país não recuou nas ambições: em junho de 2026, o ministro do Turismo, Edmund Bartlett, anunciou a nova visão “10x10x10” — a meta de chegar aos 10 milhões de visitantes e a 10 mil milhões de dólares em receita turística na próxima década. Mais do que uma meta perdida por causa da tempestade, é a prova de que a recuperação serviu de rampa de lançamento para um objetivo ainda mais ambicioso.

Uma tendência transversal a todos os mercados: os turistas querem cada vez mais sair dos resorts. A praia continua a ser o ponto de partida, mas cresce o número de atrações e experiências à procura — gastronomia, cultura, natureza — bem para além da areia e do all-inclusive. Nos últimos anos, o alojamento local também mudou de cara, com o Airbnb operado por jamaicanos a representar hoje cerca de 30% da oferta, reforçando a diversidade de oferta e capacidade de atracção de novos turistas.

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Por Rita Montez, Opção Turismo (texto e fotografias) *

* A jornalista viajou a convite da NewBlue e da Secretaria do Turismo da Jamaica.