A forte dependência da economia de Macau da indústria do jogo trouxe um crescimento económico sem precedentes nas últimas duas décadas, mas criou também “riscos estruturais” para a estabilidade financeira do território e da China continental, conclui um estudo de dois académicos chineses.
A investigação, conduzida por Zhong Yun e Hu Zhouqin, do Instituto de Economia da Universidade de Jinan, analisa a evolução do setor desde a liberalização das concessões de jogo, em 2002, até à atualidade, avaliando o seu papel na estratégia de “diversificação económica adequada” promovida pelo Governo de Macau.
Publicado na revista académica Estudos na Área do Jogo e do Turismo Mundial, da Universidade Politécnica de Macau, o estudo reconhece que o jogo e o turismo foram determinantes para o crescimento económico, o aumento das receitas fiscais e o desenvolvimento urbano do território. Contudo, alerta que a concentração excessiva numa única atividade económica tornou Macau particularmente vulnerável a choques externos e a riscos financeiros.
Entre 2002 e 2013, as receitas brutas do jogo aumentaram de 23,5 mil milhões para 361,8 mil milhões de patacas, enquanto o valor acrescentado do setor representou entre 45% e 60% do Produto Interno Bruto (PIB) durante vários anos. Entre 2010 e 2019, os impostos cobrados sobre o jogo corresponderam a 70% a 80% das receitas públicas, tendo atingido 88,12 mil milhões de patacas em 2024.
O emprego na indústria também registou um crescimento expressivo, passando de cerca de 23.500 trabalhadores em 2002 para 82.900 em 2025.
Apesar destes indicadores, os autores consideram que a predominância do jogo criou uma “profunda dependência” ao nível das receitas fiscais, da estrutura do mercado de trabalho e do tecido empresarial. A pandemia de covid-19 evidenciou essa fragilidade, com o PIB de Macau a cair de 444,1 mil milhões de patacas em 2019 para 202 mil milhões em 2020.
O estudo refere ainda que os salários mais elevados praticados nos casinos dificultam a mobilidade dos trabalhadores para outras áreas de atividade. Em 2025, os trabalhadores do setor auferiam um salário médio mensal de 28.020 patacas, acima da mediana do território, o que, segundo os investigadores, limita o desenvolvimento de setores emergentes como a tecnologia, as finanças e a saúde.
Os académicos destacam igualmente os riscos para a segurança financeira da China, salientando que a natureza intensiva em numerário da atividade do jogo pode facilitar o branqueamento de capitais. Segundo o estudo, alguns residentes da China continental recorrem a bancos clandestinos e a canais ilegais para transferir dinheiro para Macau, contornando os controlos cambiais.
Além disso, alertam que perdas avultadas de empresários ou gestores em atividades de jogo podem desencadear falências com impacto em cadeias de abastecimento e na estabilidade económica.
O estudo recorda ainda que mais de 70% dos visitantes de Macau provêm da China continental, tornando a economia local fortemente dependente da evolução económica e das políticas adotadas por Pequim.
Neste contexto, os seis operadores de jogo enfrentam atualmente pressão para investir em projetos não relacionados com os casinos, no âmbito da estratégia governamental “1+4”, que aposta no desenvolvimento dos setores da saúde, tecnologia, convenções e exposições e finanças.
Embora reconheçam que Macau tem vindo a diversificar a sua oferta turística através do património cultural, eventos internacionais, desporto e lazer, os autores concluem que o jogo continuará a ser, pelo menos no curto e médio prazo, a principal fonte de receitas da economia do território. Com LUSA





