Muito antes da fronteira, já existia Miranda do Douro

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Há destinos que se apresentam pela gastronomia, outros pela natureza e outros ainda pelo património. Miranda do Douro consegue reunir tudo isso, mas há um elemento que antecede qualquer postal ilustrado: a História. Não apenas a que se lê nos livros ou se observa nas muralhas de um castelo, mas aquela que permanece gravada na paisagem, nas rochas e na memória de um território que, durante milhares de anos, foi sendo moldado por diferentes povos.

Foi precisamente essa dimensão que marcou o segundo dia da fam trip organizada pelo Club AF Turismo, entre 19 e 22 de junho, que reuniu profissionais do setor para dar a conhecer a diversidade da oferta turística do concelho. Depois de um primeiro contacto com a identidade mirandesa, o segundo dia foi dedicado a compreender porque é que este concelho, situado no extremo nordeste de Portugal, continua a ser muito mais do que um destino de fronteira.

Miranda do Douro é um território com pouco mais de 6.400 habitantes distribuídos por uma área superior a 487 quilómetros quadrados, onde os dias quentes de verão (durante a visita, os termómetros ultrapassaram facilmente os 35 graus), contrastam com a tranquilidade das ruas do centro histórico e com uma paisagem dominada pelo Planalto Mirandês e pelas impressionantes arribas do Douro Internacional.

Apesar de ser frequentemente associada aos pauliteiros, ao mirandês ou à reconhecida gastronomia transmontana, Miranda apresenta uma oferta turística bastante mais ampla. Ao património cultural juntam-se o turismo arqueológico, o turismo de natureza, as atividades fluviais, os desportos ao ar livre e um artesanato que continua vivo através da cutelaria, da tanoaria e da tecelagem. Ainda assim, basta começar a percorrer o centro histórico para perceber que há um elemento comum a tudo isto: a capacidade de contar histórias.

Um castelo em ruínas que continua a guardar a cidade

A primeira paragem foi o Castelo de Miranda do Douro, implantado num ponto estratégico que domina a entrada da cidade histórica e oferece uma ampla vista sobre o vale do Douro.

Construído no final do século XIII por ordem de D. Dinis, o castelo desempenhou durante séculos um papel determinante na defesa da fronteira portuguesa. A evolução das técnicas militares obrigou, já no século XV, ao reforço das estruturas defensivas, com a construção de novas muralhas adaptadas à utilização da pólvora e de uma torre adicional.

Hoje, o que permanece são ruínas. Mas são precisamente essas ruínas que ajudam a compreender a dimensão da antiga fortaleza.

A destruição ocorreu em 1762, durante a Guerra dos Sete Anos, quando as tropas espanholas de Carlos III ocuparam a cidade. A explosão do paiol de pólvora acabou por devastar grande parte da estrutura, deixando apenas fragmentos daquilo que foi uma das principais fortalezas da fronteira nordeste portuguesa, levando à morte de cerca de 400 pessoas.

Ainda assim, caminhar pelo recinto continua a ser uma experiência marcante. O antigo poço, acessível através de 46 degraus em espiral, recorda que a sobrevivência de uma fortaleza dependia tanto da sua arquitetura como da capacidade de garantir água durante longos períodos de cerco. Convenhamos: depois de descer aquelas escadas, a expressão “ir buscar água” ganha outra perspetiva.

Ao longo do percurso, é impossível não imaginar o papel que aquele espaço desempenhou durante séculos. A localização estratégica explica porque Miranda foi tantas vezes disputada ao longo da História e porque continua, ainda hoje, a ocupar um lugar central na identidade do concelho.

Uma Sé que continua a dominar a paisagem

A poucos minutos do castelo ergue-se outro dos grandes símbolos de Miranda do Douro: a antiga Sé, atualmente Concatedral.

A construção iniciou-se em 1552 e prolongou-se até aos últimos anos do século XVI, refletindo a importância que Miranda assumia enquanto sede episcopal. A imponência do edifício continua a surpreender quem chega pela primeira vez à cidade, sobretudo tendo em conta a dimensão atual da população.

Classificada como Monumento Nacional desde 1910, a Concatedral é considerada o maior templo religioso de Trás-os-Montes e constitui um dos mais relevantes exemplos da arquitetura religiosa renascentista da região.

No interior, o ambiente convida naturalmente ao silêncio. Não apenas pela dimensão do espaço, mas pela consciência de que aquele edifício atravessou guerras, transformações políticas e séculos de história sem perder a sua centralidade.

Se o castelo representava a força militar de Miranda, a antiga Sé testemunha a relevância religiosa e administrativa que a cidade alcançou ao longo da Idade Moderna.

A paisagem também faz parte da História

Terminadas as visitas monumentais, o percurso seguiu em direção a dois dos locais mais emblemáticos do concelho: o Miradouro da Paradela, conhecido por ser o ponto mais oriental de Portugal onde nasce o sol, e o Miradouro de São João das Arribas.

É precisamente nestes locais que se compreende uma ideia repetida ao longo da visita: em Miranda do Douro, a paisagem não funciona apenas como pano de fundo. Ela é património.

Quem observa as arribas do Douro percebe rapidamente porque este território foi ocupado desde tempos tão remotos. As escarpas, os vales e o vasto Planalto Mirandês moldaram a vida das comunidades muito antes da construção de muralhas ou igrejas.

Há miradouros onde o impulso é tirar uma fotografia e seguir caminho. Em Miranda, o desafio acaba por ser outro: guardar o telemóvel durante alguns minutos e simplesmente observar.

“Há aqui uma alma”

Foi precisamente sobre essa ligação entre património e território que a arqueóloga Mónica Salgado, que acompanhou a visita guiada, falou ao Jornal Opção Turismo.

Natural de Bragança, vive em Miranda do Douro desde 2008, decisão que explica menos pela profissão e mais pelo sentimento que desenvolveu em relação ao território: “Há aqui uma alma que os próprios mirandeses durante muito tempo não se apercebiam que existia. Agora começam a valorizá-la. Há uma ancestralidade e um conjunto cultural muito diferenciados.”

Questionada sobre aquilo que distingue Miranda do Douro de outras zonas históricas da região, a resposta surge de imediato: “O grande diferencial é o Planalto Mirandês.”

Já a arqueologia, especialidade de Mónica Salgado, confirma que a história de Miranda começou muito antes da fundação da cidade medieval. Segundo a própria, os vestígios mais antigos identificados na região correspondem a arte rupestre datada do Calcolítico, período que remonta aproximadamente ao terceiro milénio a.C. “São gravuras feitas diretamente nas rochas. É o registo mais antigo que conhecemos aqui”, indicou.

Esta continuidade da ocupação humana ajuda a compreender porque Miranda do Douro representa hoje um território de enorme interesse para investigadores e visitantes interessados em arqueologia. Ao contrário de outros destinos onde a História se concentra num único monumento, aqui ela encontra-se dispersa por toda a paisagem, obrigando o visitante a olhar para além dos edifícios.

Um destino com margem para crescer

Na opinião da arqueóloga, Miranda do Douro reúne condições para afirmar ainda mais o seu posicionamento enquanto destino turístico, afirmando que o destino “tem muito potencial.”

Contudo, considera que esse crescimento passa por uma maior articulação entre os diferentes agentes ligados ao turismo e pela valorização integrada dos recursos existentes.

Entre os projetos atualmente em desenvolvimento encontra-se também a criação de percursos mais seguros junto das estruturas históricas, permitindo melhorar a experiência dos visitantes e facilitar o acesso a algumas zonas do património arqueológico e militar. No fundo, para Mónica Salgado, o objetivo passa por incentivar estadias mais prolongadas: “Com rotas organizadas, trilhos e visitas aos arredores, as pessoas podem perfeitamente passar quatro ou cinco dias aqui.”

A proximidade com Zamora, em Espanha, reforça igualmente o potencial da região para integrar itinerários transfronteiriços.

Se existe uma ideia que a arqueóloga faz questão de contrariar é a de que Miranda do Douro se visita apenas durante os meses mais quentes, rematando que “Miranda é bonita em qualquer altura do ano.”

Como exemplo, aponta o período entre meados de dezembro e o início de janeiro, quando várias aldeias do concelho celebram as tradicionais “Festas de Inverno”, manifestações culturais profundamente ligadas às antigas tradições comunitárias transmontanas.

Localidades como Constantim, São Pedro da Silva e Vila Chã de Braciosa preservam celebrações que continuam a atrair visitantes interessados nas máscaras, nos rituais ancestrais e nas expressões populares que sobreviveram ao passar dos séculos, exemplos de um património imaterial que complementa o património monumental e arqueológico, remarcando assim a identidade singular do concelho.

A riqueza do concelho não reside apenas nas muralhas do castelo, na imponência da Concatedral ou na grandiosidade das arribas do Douro. Está sobretudo na forma como todos esses elementos se relacionam entre si, construindo uma narrativa que atravessa milhares de anos.

Talvez a maior lição que se deve retirar de um dia dedicado à arqueologia e à história é que, em Miranda, o património não termina onde acaba um monumento. Continua na paisagem, nas aldeias, nas tradições e até nas pedras que, à primeira vista, parecem apenas fazer parte do caminho.

Por Joana Pereira