A Loucura de Brockworth: Quando o Queijo Ganha à Gravidade

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Senhoras e senhores, apertem os cintos, ou melhor, rezem por um par de joelheiras divinas, porque nada diz mais “orgulho britânico centenário” do que atirar uma roda de queijo Double Gloucester de quatro quilos por uma ravina quase vertical e ver dezenas de adultos perfeitamente saudáveis a rebolar atrás dela como se fossem bonecos de trapos apanhados por um tornado.

A mítica corrida de Cooper’s Hill, em Brockworth, é aquele evento onde a gravidade ganha sempre por goleada e a dignidade humana vai voluntariamente para o lixo em nome de um laticínio.

O conceito é de uma simplicidade assustadora: o queijo é lançado colina abaixo, atinge uns modestos cento e dez quilómetros por hora e, logo a seguir, um bando de corajosos e ligeiramente insanos atira-se no mesmo trilho de lama e erva, desafiando todas as leis da física e da ortopedia.

A inclinação é tão estúpida que ninguém consegue correr; o estilo oficial de descida varia entre a cambalhota descontrolada, o escorrega de rabo e o voo sem asas, terminando invariavelmente num amontoado de braços e pernas no sopé da montanha, onde os paramédicos locais já esperam com macas e um stock reforçado de gesso.

E qual é a grande recompensa por arriscar uma concussão cerebral e três costelas partidas perante uma multidão em delírio? Ficar com o bendito queijo. É isto. Não há medalhas de ouro, não há contratos publicitários milionários, apenas a glória eterna de levantar um laticínio circular enquanto se coxreia até à ambulância.

A história recente do evento até ganhou contornos de saga épica de Hollywood, com o lendário Chris Anderson, um soldado que venceu a prova vinte e três vezes só para admitir mais tarde que nem sequer gosta daquele tipo de queijo e prefere Cheddar, a ser desafiado por um jovem alemão chamado Tom Kopke, provando que a obsessão por rolar na lama atrás de comida cruza todas as fronteiras europeias. As autoridades já tentaram proibir a corrida por razões óbvias de saúde pública, mas o povo de Brockworth mandou o bom senso às urtigas e continua a organizar a loucura de forma clandestina e voluntária todas as primaveras, porque se os teus antepassados do século dezanove partiam clavículas por causa de um queijo, quem és tu para quebrar essa nobre tradição familiar.