O operador turístico Solférias reuniu um grupo de agentes de viagem portugueses numa viagem de familiarização à ilha de Djerba, com o objetivo de testar no terreno o produto que já comercializam e aferir o seu potencial para o verão. O contacto direto com hotéis, experiências e dinâmica local veio consolidar perceções, mas também levantar questões sobre a maturidade do destino, num momento em que o mercado europeu domina claramente as vendas.
Entre Europa e destinos de sol: onde se posiciona Djerba
A análise do comportamento de vendas nas agências revela um cenário em transformação. Se, por um lado, a Solférias mantém um peso relevante, como sublinha Selda Vieira (Lusoviagens, Leiria), “o operador que mais vendemos é a Solférias”, por outro, há uma tendência clara para viagens mais curtas dentro da Europa.

Rafaela Teixeira (Book Viagens, Ílhavo) enquadra essa mudança ao admitir que “este ano, no meu caso, estou a vender mais a Europa”, associando essa preferência ao contexto internacional, ainda que continue a trabalhar destinos como Djerba.

Já Marisa Silva (Captain MS, Setúbal) aponta para uma procura cada vez mais segmentada, explicando que “há clientes que gostam de conjugar a parte cultural com o descanso”, enquanto Riany Mariano (RSM Click Viaja, Porto) confirma que, no seu caso, os clientes continuam mais focados em destinos como Espanha, Malta ou Grécia.
Vendas em 2026: crescimento com nuances
Apesar desta reconfiguração, o desempenho comercial não revela uma quebra generalizada, antes pelo contrário. Ivânia Martins (Destinos à Lupa, Caneças) afirma que “estes anos estão muito superiores ao ano passado”, uma perceção partilhada por Marisa Silva, que reforça que, de facto, aumentou a procura, sublinhando ainda que recomenda o destino “a toda a gente”, sobretudo pela curta duração do voo.
No entanto, o cenário não é homogéneo: Rita Almeida (Sem Raízes Viagens, Sacavém) identifica uma ligeira desaceleração, explicando que “senti que vendi mais o ano passado do que este ano”, associando essa mudança ao facto de os clientes procurarem destinos novos.

Ainda assim, Djerba mantém-se presente. Flávio Silva (ViajaAgora, Queluz) coloca o destino no “top cinco” da sua agência e identifica uma tendência: “Há uma maior procura por alternativas, fugindo um pouco ao conflito do Médio Oriente. A Tunísia acaba por beneficiar disso.”
Um produto afinado no terreno: experiência reforça capacidade de venda

É precisamente nesse contexto que o programa da Solférias ganha relevância. A experiência no destino surge como um fator importante para reforçar a confiança na venda. Helena Oliveira (Repartir Viagens, Fátima) considera que “está muito bem conseguido, dá para ter um cheirinho da praia e também do deserto”, equilibrando cultura e descanso, uma lógica também valorizada por Ivânia Martins, que admite que “o combinado, para alguns clientes, permite ter um bocadinho das duas experiência também”.

Para Diogo Teixeira (APM Viagens, Odivelas), a iniciativa foi “muito boa”, sobretudo por permitir “testar o serviço hoteleiro e a infraestrutura” num destino que já é forte na sua agência. A mesma ideia surge no testemunho de Cloé Dias (Viagens Lunar, Pombal), que sublinha que “a nível de experiência foi muito bom, tudo muito bem organizado”, acrescentando que será mais fácil vender com este conhecimento.
A componente emocional também se destaca: Rita Almeida admite que “não conhecia o destino” e que foi “uma coisa que surpreendeu pela positiva”, garantindo que vai aconselhar a experiência do deserto. Já Joana Elisiário (Be In Travel Portugal, Cartaxo) sintetiza o posicionamento do produto: “tem tudo a ver com o tipo de cliente que nós temos, que aprecia o bom, bonito e barato”. No mesmo registo, Flávio Silva reconhece que “já era um produto fácil de comercializar” e que agora têm “mais luzes para vender com mais facilidade”.
Se há ponto onde a experiência no terreno trouxe maior nuance foi na avaliação da hotelaria. O consenso aponta para uma clara preferência por cadeias internacionais como Iberostar [Iberostar Selection Eolia Djerba, unidade de cinco estrelas, e o Iberostar Waves Mehari Djerba] e o Robinson Djerba Bahiya, unidade de quatro estrelas, vistas como mais alinhadas com as expectativas do cliente europeu.
Riany Mariano refere que “gostou muito dos Iberostar” pela organização, enquanto Ana Henriques (Agência de Viagens Teles, Angra do Heroísmo) admite que “adorou o Robinson e os hotéis da cadeia Iberostar” e que os venderia “como se fosse para mim”.
Beatriz Pereira (Top Atlântico, Entrecampos) diferencia perfis, explicando que “os hotéis da cadeia Iberostar é para quem quer descanso”, enquanto o Robinson Djerba Bahiya para quem procura mais animação. Também Helena Oliveira reforça que estas unidades estão “mais viradas para o tipo de turista europeu”, enquanto Flávio Silva garante que os hotéis Iberostar “vão-se continuar a destacar no top de vendas”. Ainda assim, há um reconhecimento de que algumas unidades precisam de melhorias, embora, como refere Cloé Dias, “o tudo incluído funcione bem” no destino.
Preço, acessibilidade e experiência: o argumento central
No final, é a relação qualidade-preço que sustenta a competitividade de Djerba. A proximidade (cerca de três horas de voo) surge como vantagem clara, como sublinha Selda Vieira, que descreve o destino como “uma boa opção” enquanto produto de praia acessível. Rafaela Teixeira reforça que “vale a pena investir” e que “não é preciso gastar muito para ter boas condições”, enquanto Marisa Silva considera que faz “muito sentido para os portugueses”.
Para Andreia Ferreira (Stern Travel, Felgueiras), o destino responde a diferentes perfis, desde quem procura descanso até quem quer experiências, explicando que os mais jovens “gostam muito de explorar e ter um combinado”, como o deserto.
Entre o potencial e os desafios
A perceção global do destino é positiva, mas não isenta de reservas. Diogo Teixeira destaca que as praias “não ficam nada atrás das Caraíbas”, reforçando o valor competitivo do destino, enquanto Andreia Ferreira admite que “não estava à espera de gostar tanto” e descreve a experiência como “fantástica”. No entanto, Helena Oliveira aponta que “o serviço não é do melhor”, associando essa limitação a uma questão cultural, e Beatriz Pereira considera que o destino “ainda tem que crescer muito turisticamente”.
Ainda assim, fatores como a praia, segurança, hospitalidade e facilidade logística continuam a pesar na balança. Como resume Marisa Silva, trata-se de um destino que “reúne tudo o que os portugueses gostam”.
A síntese talvez fique melhor nas palavras de Ivânia Martins, que resume a experiência numa palavra: “Inexplicável.”






