Se um hotel diz que é exclusivo, mas aparece lado a lado com 200 opções “com pequeno-almoço incluído e cancelamento gratuito” na Booking.com, será mesmo exclusivo — ou apenas mais um produto bem fotografado? A verdade é desconfortável, mas libertadora: os canais onde um hotel escolhe estar são extensões da sua identidade. Não são neutros. Um hotel que se posiciona como retiro de silêncio, mas grita em promoções de última hora, está a criar ruído na própria narrativa. Um boutique hotel que ambiciona intimidade, mas joga o jogo do volume nas grandes plataformas como a Expedia Group, arrisca-se a atrair curiosos em vez de devotos. Porque, no fim, aquilo que o hotel manifesta ser — no tom, na imagem, na distribuição — é exatamente aquilo que atrai. Nem mais, nem menos. Os verdadeiros “hipermercados de quartos” onde tudo parece igual, tudo compete por atenção e tudo promete ser “único” diluem o hotel… não por falta de originalidade, mas por falta de expressão.
O fator diferenciador não está apenas na qualidade da imagem ou na descrição poética (que todos já dominam), mas na coerência quase obsessiva do detalhe: o tipo de linguagem usada, as experiências destacadas em vez das comodidades, as parcerias visíveis, o ritmo da comunicação, até o silêncio estratégico de não tentar agradar a todos. Plataformas como Mr & Mrs Smith ou Design Hotels provaram que, mesmo dentro de ecossistemas amplos, há espaço para identidade — mas apenas para quem sabe exatamente quem é. Nos corredores infinitos das OTAs, não vence quem grita mais alto. Vence quem soa diferente o suficiente para ser reconhecido — e relevante o suficiente para ser escolhido, mas com provas dadas!
A oferta cresce mais rápido do que a atenção do viajante, logo, a hotelaria deixou de ser apenas operação para se tornar estratégia — e narrativa.
A comercialização da hotelaria (ou dito de forma mais sexy, o Marketing) é um sistema vivo interligado com o propósito, onde canais, marca, experiência e pessoas se entrelaçam. Cada decisão — desde estar presente na Booking.com ou na Expedia Group até colaborar com uma agência de nicho — molda o tipo de cliente que atravessa a porta.
Distribuir não é vender — é escolha estratégica
Durante anos, medir sucesso significava quantificar ocupação. Hoje, essa métrica, isolada, é quase ingénua. Sim, olhemos para os relatórios, percentagens ocupacionais, comparações com concorrência e com ocupação do ano anterior para os lindos forcastes a apresentar nas reuniões… Olhemos para os números do RevPar e apliquemos todas as praticas que o santo Yield e Revenue Management nos permita, assim na terra como no hotel.
Relatórios das consultoras Phocuswright, Skift Research e Deloitte apontam para uma mudança clara: o valor está a migrar da quantidade para a qualidade da procura. O foco já não é “encher quartos”, mas atrair o cliente certo, pelo canal certo, com o custo de aquisição certo e o potencial de repetição certo. E na prática, como se procede?As OTAs são montras globais. Mas são apenas isso: montras. A relação constrói-se noutros territórios: O website próprio, muitas vezes subvalorizado, é hoje o canal mais poderoso para contar a história sem filtros, para converter com intenção e para iniciar uma relação direta. Programas de fidelização — bem desenhados — deixam de ser descontos disfarçados e passam a ser ecossistemas de pertença que tanto se procura (feeling you belong)
E depois há o regresso — silencioso, mas consistente — das agências.
O regresso da curadoria: menos escolha, mais sentido
Soft brands e posicionamento: identidade com estratégia
* Clareza sobre o dream client
* Coerência estética e narrativa
* Disciplina comercial (saber dizer não)
* Qual o nosso factor-wow que só “aquele” cliente repara e valoriza ao ponto de nos escolher entre 500 opções?
Como sublinha a Harvard Business Review, marcas fortes não são aquelas que agradam a todos — são aquelas que significam algo muito claro para alguém específico.
A operação como palco: onde a promessa se cumpre (ou falha)
E depois há a verdade inevitável: nenhuma estratégia de distribuição salva uma operação desconectada!
O trabalho do hoteleiro continua — e continuará — a ser exigente: vender noites, alimentar clientes, garantir standards, gerir equipas… envolve imenso! A ligação emocional e a hospitalidade começa com a prática “in House”, sim, do cliente interno designado colaborador… é nele que começa e acaba a Cultura de Empresa, não é num SOP! O hóspede já intui e sente quando o wellbeing que vende no SPA não está alinhado com o wellbeing que a equipa carrega nos ombros… Esse tópico faz-nos reflectir igualmente sobre a criação de relação emocional com o cliente através de iniciativas verdadeiras com o local onde está inserido (yep, chama-se sustentabilidade!) Essa ligação constrói-se através de experiências — não apenas fora do hotel, mas dentro dele, em diálogo com o território.
Exemplos concretos?
* Um hotel no Douro que convida produtores locais para provas intimistas na sua biblioteca
* Um Memmo Alfama que transforma o lobby num palco para artistas emergentes da cidade
* Workshops de cerâmica com artesãos locais realizados no próprio hotel, como no Montimerso
* Oficinas de Massa-Mãe integrando locais e hóspedes como no Noah Surf House
* Jantares vínicos com enólogos convidados, como na Malhadinha Nova
* Sessões de bem-estar com práticas tradicionais portuguesas reinterpretadas
* Passeios a pé depois do Pequeno-Almoço pela Serra como na Casa das Penhas Douradas
* Hora do lanche com Paint & Drink como nas Cabanas da Viscondessa
* Prática de yoga no rooftop com locais e hóspedes promovidos pela escola de yoga local como no Upon Vila Hotel
Plataformas como Airbnb (com as suas Experiences) ou GetYourGuide ajudaram a educar o mercado para o valor da experiência. Mas os hotéis têm uma vantagem única: o contexto contínuo (épocas, estações, perfis de colaboradores que aportam perfis de acolhimento diferentes, sem fim de iniciativas a desenvolver, etc). Podem integrar, aprofundar e personalizar essas experiências de forma orgânica e aposto que a própria equipa (interna) estaria interessada em participar e promover, não necessariamente a empresa externa de animação turística…
Um último pensamento (ou provocação): Se amanhã todas as OTAs desaparecessem, o seu hotel continuaria a ser encontrado? E, mais importante ainda — continuaria a ser desejado? Porque no fim, a hotelaria não é sobre quartos disponíveis, é sobre histórias que merecem ser vividas e hoje ainda mais, sobrevivências que o hóspede quer aprender e replicar na sua vida fora do hotel.






