Tânger, Casablanca e Rabat: três formas de entrar em Marrocos

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Marrocos não se explica logo à chegada: sente-se. E a forma como se sente depende muito da cidade onde se aterra.

Num percurso que começou em Tânger, seguiu para Casablanca e terminou em Rabat, numa visita com um grupo de jornalistas, a convite da Bestravel e do Turismo de Marrocos, tornou-se evidente que o país não cabe numa única leitura. Há ritmos diferentes, ambientes que quase não parecem pertencer ao mesmo território e cada cidade impõe um tom próprio.

Tânger vive da expectativa, Casablanca mostra a realidade sem filtros e Rabat equilibra as duas.

Tânger: o imaginário que ainda resiste

Chegar a Tânger com chuva não estava no plano. A imagem mental era outra: luz intensa e vento atlântico. Em vez disso, havia céu cinzento e ruas molhadas. Ainda assim, a cidade cumpriu exatamente aquilo que promete desde sempre: uma sensação de fronteira permanente. Tânger é geografia e mito ao mesmo tempo.

O nome associa-se à figura lendária de Tinjis, ligada às Grutas de Hércules, junto ao estreito de Gibraltar. A cidade sempre viveu nessa condição de limite: África e Europa frente a frente, Mediterrâneo e Atlântico a cruzarem-se num ponto quase simbólico. Foi romana, foi disputada por portugueses e ingleses, tornou-se zona internacional entre 1925 e 1956 e ganhou fama de território neutro, diplomático, mas também ambíguo.

Durante o período internacional, consolidou-se como enclave multicultural. Comunidades muçulmanas, judaicas e cristãs coexistiam num espaço que atraía criadores e outsiders. Escritores como Paul Bowles e William S. Burroughs viveram ali temporadas marcadas por excessos e liberdade. Henri Matisse ficou fascinado pela luz do Norte de África. Tânger construiu uma reputação que mistura boémia, diplomacia e um toque artístico.

Hoje, a cidade é também uma potência industrial emergente. O complexo portuário Tanger Med posicionou-a nas rotas globais e o crescimento urbano foi acelerado nas últimas décadas. Há uma modernização visível, mas também contrastes sociais evidentes.

Hamida Sembak, a guia que acompanhou o grupo, tinha uma energia que anulava a chuva. Falava de Tânger com uma convicção que não parecia profissional, mas sim pessoal. “É uma cidade internacional”, dizia, sublinhando essa neutralidade histórica que a moldou.

Falava de Tânger com convicção e naturalidade. Sublinhava que é uma cidade internacional graças à sua história de neutralidade política e destacava a segurança das praias durante a época balnear, com socorristas e acessos facilitados. Garantia que alojamento não é problema, referindo que há hotéis de todos os tipos e de todos os preços. Na gastronomia, a diversidade é assumida como identidade: tagine, peixe, marisco, influências mediterrânicas e espanholas.

Antes de terminar a conversa, deixou um aviso simples: quem vai a Tânger não pode perder o pôr do sol. O pôr do sol, no nosso caso, escapou. Fica a desculpa perfeita para voltar: há cidades que não se fecham numa primeira visita, e Tânger é claramente uma delas.

A estadia no El Minzah Hotel reforçou essa sensação de cidade com memória. Entre mercados de especiarias, comércio intenso de vestuário e ruas cheias de vozes, destacou-se sobretudo o lado humano. Há uma frontalidade calorosa na forma como os marroquinos recebem. Mesmo com chuva, Tânger mantém carisma.

Casablanca, a cidade que funciona

Se Tânger permite algum romantismo, Casablanca retira-o rapidamente. A maior cidade do país impõe-se pelo ritmo: trânsito permanente, avenidas largas, edifícios administrativos, negócios a acontecer em simultâneo. Aqui percebe-se que Marrocos não é cenário exótico para consumo externo, mas sim, um país a operar numa escala própria.

Casablanca nasceu como Anfa, foi destruída no século XV, reconstruída após o terramoto de 1755 e profundamente moldada pelo Protetorado Francês a partir de 1910. Cresceu de forma explosiva ao longo do século XX e consolidou-se como capital económica. O maior porto do país concentra mais de metade do tráfego nacional e a cidade tornou-se o principal centro industrial, comercial e financeiro de Marrocos.

A estadia no Kenzi Tower Hotel permitiu observar essa dimensão cosmopolita do alto. A cidade é intensa, por vezes caótica, mas estruturalmente organizada. Em contexto profissional, faz sentido. O olhar muda quando a viagem não é lazer, mas trabalho. Repara-se na logística, na centralidade económica, na forma como a cidade sustenta o país. Se fosse apenas férias, talvez o ritmo esmagasse. Em trabalho, a energia encaixa.

No meio dessa engrenagem urbana, a Mesquita Hassan II cria um contraste evidente. Monumental, voltada para o Atlântico, construída entre 1986 e 1993, combina fé, escala e engenharia num gesto arquitetónico que suspende o ruído da cidade por momentos. Não há como ignorar a dimensão simbólica daquele espaço num ambiente dominado por negócios e infraestruturas.

Casablanca não tenta seduzir pelo mito, mas afirma-se pela função. É uma metrópole onde a modernidade e a memória colonial coexistem com uma dinâmica económica intensa. É o choque necessário para perceber que o país não vive apenas da imagem que exporta.

Rabat, o equilíbrio institucional

Depois do ritmo acelerado de Casablanca, Rabat apresenta outra cadência. É capital política e administrativa, menos densa, mais verde e mais organizada. A cidade parece assumir a tarefa de estruturar aquilo que noutras geografias é mais instintivo.

Fundada no século XII pelo califa almóada Abde Almumine, ganhou ambição imperial com Iacube Almançor. Desse período permanecem a Torre Hassan e o conjunto monumental onde se encontra o Mausoléu de Mohammed V. As muralhas definem o traço histórico, enquanto a expansão moderna, impulsionada durante o Protetorado Francês, moldou a capital contemporânea que se manteve após a independência de 1956.

Mostafa Maracha, guia independente nascido e criado em Rabat, falava espanhol com fluidez e arriscava português com simpatia. Para ele, Rabat é “uma capital tranquila”, onde o ar do Atlântico equilibra o peso institucional. Dizia-nos que ali se sente “o Marrocos oficial, mas sem o caos”.

Mostafa explicava que a cidade foi escolhida como capital moderna durante o Protetorado Francês e que, depois da independência, manteve esse estatuto. Mostrava-nos a convivência entre a medina e os bairros planeados, entre as muralhas almóadas e as avenidas administrativas. “Aqui não há pressa como em Casablanca”, dizia. “Aqui trabalha-se, mas vive-se.”

Rabat não impressiona pela grandiosidade económica nem pelo mito literário. Impressiona pela coerência. Há uma sensação de estabilidade que ajuda a compreender o país de forma mais integrada.

Marrocos não é uma viagem linear. Não se resume à primeira impressão nem à cidade de entrada. Exige ajuste constante de perspetiva. Entre a projeção cultural de Tânger, a intensidade económica de Casablanca e a organização política de Rabat, constrói-se uma imagem mais completa de um país que prefere ser sentido antes de ser explicado.

E talvez essa seja a maior aprendizagem: a primeira cidade nunca diz tudo.