Disponibilidade voluntária das unidades e revisão estatística dominam conferência da AHP

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A hotelaria portuguesa voltou a mobilizar-se em poucas horas para dar resposta às consequências das recentes intempéries, no âmbito do programa O Turismo Acolhe, com o apoio do Turismo de Portugal, com dezenas de unidades a disponibilizarem alojamento para desalojados, trabalhadores e equipas no terreno. A garantia foi deixada por Bernardo Trindade, presidente da Associação da Hotelaria de Portugal (AHP), durante a conferência de imprensa do 35.º Congresso da AHP, que decorre na Alfândega do Porto.

“Lançámos o inquérito, estamos a recolher informação, estamos a participar no programa  O Turismo Acolhe com a definição de tarifas e, portanto, dando cobertura a uma necessidade”, afirmou. O dirigente sublinhou que a resposta do setor foi imediata: “Foi incrível a rapidez com que, depois da publicação, começaram a cair telefonemas de hoteleiros a disponibilizarem-se.”

Segundo explicou, numa primeira fase a prioridade foi assegurar alojamento à própria força de trabalho. “Numa fase inicial, dando respostas às necessidades daquela que é a nossa força de trabalho”, referiu, acrescentando que o alargamento a outros públicos já está em curso, nomeadamente voluntários, trabalhadores envolvidos na recuperação e populações afetadas.

O modelo assenta num caráter voluntário, mas com enquadramento financeiro. “Alguns que fizeram até aqui eram gratuitos, outros com participação financeira do Turismo de Portugal. Há um preço máximo tabelado, que é 60 euros, ou, se for a melhor tarifa disponível, tem que estar 10% abaixo da best available rate”, detalhou. As unidades têm de submeter documentação ao Turismo de Portugal e cumprir os tetos definidos.

Questionado sobre o número de hotéis envolvidos, Trindade admitiu que ainda não há um apuramento fechado, mas confirmou a adesão de vários grupos e unidades independentes, sobretudo nas regiões afetadas. “Já há bastantes unidades. Isto vai crescendo nos próximos dias”, afirmou, lembrando que a sucessão de fenómenos meteorológicos dificulta ainda a avaliação global dos impactos.

Sobre eventuais prejuízos operacionais e necessidade de apoios, o presidente da AHP foi prudente: “Tudo nesta fase ainda é um bocadinho prematuro.” A associação está a recolher dados junto dos associados para avaliar danos e impactos na operação, mas reconhece que o cenário permanece incerto enquanto as condições meteorológicas não estabilizarem.

Norte sem registo de danos significativos

Do lado regional, Luís Pedro Martins, presidente da Associação de Turismo do Porto e Norte, adiantou que, até ao momento, não há registo de danos significativos na região. “Enviámos um email a todos os autarcas (…) e até ao momento não temos registo de que haja na região problemas de maior”, disse.

Ainda assim, confirmou que vários hotéis já estavam a acolher trabalhadores e famílias antes mesmo do lançamento formal do programa. “Muito antes deste programa, já a hotelaria nas zonas afetadas estava a acolher, primeiramente, os seus trabalhadores”, afirmou, referindo também o alojamento de equipas da Cruz Vermelha em Fátima.

Cristina Siza Vieira, vice-presidente executiva da AHP, reforçou que “já há associados da AHP que estão a participar neste programa” e que o setor foi novamente contactado pelo Turismo de Portugal, à semelhança do que aconteceu durante a pandemia. O objetivo passa por garantir alojamento temporário não só para desalojados, mas também para trabalhadores envolvidos na reabilitação de infraestruturas. “Esta reabilitação durará tempo e, portanto, isto exige disponibilidade de alojamento”, sublinhou.

“Gestão do sucesso” e defesa do setor

Para além da resposta à emergência, a conferência ficou marcada por uma defesa clara do papel do turismo na economia e na coesão territorial, protagonizada sobretudo por Luís Pedro Martins, mas acompanhada pelo posicionamento institucional da AHP.

Martins criticou o que considera ser uma narrativa recorrente de desvalorização do setor: “Ainda há quem insista em tratar mal o setor que tem tratado tão bem o país.” E acrescentou: “Eu raramente leio que há sucesso e Portugal tem tido sucesso no turismo.”

O responsável defendeu que o debate público tende a centrar-se na “gestão da pressão” ou na “gestão do overtourism”, mas raramente na “gestão do sucesso”. Para o dirigente, o turismo tem sido um dos poucos setores a olhar para o interior como oportunidade e não como fatalidade: “O turismo é um dos poucos setores que olha para o interior com uma oportunidade, quando outros olham com uma fatalidade.”

INE sob crítica: “Não contamos com todos os turistas”

Um dos momentos mais incisivos da sessão surgiu quando Luís Pedro Martins desafiou publicamente o Instituto Nacional de Estatística (INE), defendendo que os dados oficiais subestimam a real dimensão da atividade turística.

“Eu não consigo entender: nós não contamos com todos os turistas, e são uns largos milhares que visitam o Douro nos barcos-hotéis (…) e que representam um número muito significativo de hóspedes e dormidas. É como se não existissem”, afirmou.

O presidente da Turismo do Porto e Norte criticou ainda o facto de os empreendimentos com menos de 10 camas não serem contabilizados nas estatísticas oficiais. “Em territórios como o nosso deverão ser uns largos milhares, mas é também como se não existissem. Portanto, este nosso desempenho (…) é, de certeza absoluta, bem melhor do que é o que conseguimos apresentar.”

Para os profissionais do setor, a questão não é meramente estatística: impacta a perceção pública, o posicionamento político e o desenho de políticas de apoio e investimento. A revisão dos critérios de contagem surge, assim, como uma reivindicação estrutural.

Um congresso como marketplace do setor

Na abertura da conferência, Bernardo Trindade enquadrou o próprio congresso como reflexo da capacidade agregadora da hotelaria. “No conjunto de parcerias que fomos construindo ao longo do tempo, temos um conjunto de empresas, de outros setores, que hoje não deixam de passar por aqui, porque sentem que este marketplace pode ter muita consistência”, afirmou.

O presidente da AHP voltou ainda a destacar o papel do setor na recuperação e valorização de património, nomeadamente edifícios do Estado e imóveis históricos, sublinhando que muitos deles “estariam condenados a desaparecer” sem investimento turístico.

Entre resposta à emergência, defesa do setor e reivindicações estatísticas, a mensagem central deixada pela AHP é clara: a hotelaria mantém-se disponível para agir em momentos críticos, mas exige reconhecimento e instrumentos de medição que reflitam, com maior rigor, o seu peso real na economia e no território.