“O crescimento já chegou, agora é garantir capacidade para o sustentar”, afirma Luís Pedro Martins

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No arranque do 35.º Congresso Nacional da Hotelaria e Turismo, que decorre entre 11 e 13 de fevereiro, no Porto, Luís Pedro Martins, presidente da Associação de Turismo do Porto e Norte (ATP), traçou um retrato detalhado da evolução do Aeroporto Francisco Sá Carneiro e deixou um aviso claro: sem investimento estrutural, o ritmo de crescimento poderá esbarrar nos limites da infraestrutura.

“O aeroporto permitia crescer 10% ao ano antes da pandemia. Era de 10 em 10, sempre a escalar”, recordou. No pós-pandemia, porém, o desempenho superou as expectativas. “Teve um crescimento fantástico e ultrapassou muito rapidamente os resultados de 2019.”

Os números ilustram a dimensão da transformação. Quando foi inaugurada a atual infraestrutura da gare e dos acessos, “dizia-se ‘esperemos não ter sido demasiado ambiciosos’ e falava-se em chegar aos cinco ou seis milhões”. Em 2025, o Sá Carneiro fechou com 17 milhões de movimentos (chegadas e partidas). “Há 35 anos, o melhor ano tinha sido 400 mil movimentos. Hoje estamos nos 17 milhões. Isto mostra bem o que foi o crescimento do Porto.”

130 rotas e reforço da longa distância

Atualmente, o aeroporto conta com cerca de 130 rotas, maioritariamente europeias, mas com uma presença crescente fora da Europa. Luís Pedro Martins destacou a operação da Turkish Airlines, com 17 voos semanais, e o reforço das ligações transatlânticas. “Conseguimos atrair companhias que vieram ocupar espaço deixado livre pela TAP”, afirmou, referindo as operações da Air Canada, United Airlines e Azul, esta última com ligação direta a São Paulo.

A Delta Airlines, “a maior companhia do mundo”, opera a rota Nova Iorque (JFK)–Porto, e há indicações de que a American Airlines poderá regressar em 2027 com a ligação Filadélfia–Porto. “Isto significa que há mercado.”

Para o responsável, a dinâmica da conectividade internacional confirma o posicionamento crescente do Norte no mapa da aviação de longo curso, mas reforça também a necessidade de garantir capacidade instalada para sustentar novas operações.

TAP: “Última oportunidade” para reconquistar a região

Sobre a TAP Air Portugal, Luís Pedro Martins foi direto: “Julgo que é a última oportunidade de a região poder acreditar na TAP.” Justificou a afirmação com o histórico recente. “Todas as promessas feitas até hoje não foram cumpridas. Não foi realizado rigorosamente nada do que foi anunciado.” Ainda assim, fez questão de distinguir a atual liderança. “O novo CEO, Luís Rodrigues, foi o primeiro a vir falar com as regiões. E veio sem promessas, dizendo que 2025 era um ano condicionado pelo plano de reestruturação, sem possibilidade de crescer ou adquirir novas aeronaves.”

Mesmo nesse contexto, a TAP avançou com a rota Boston–Porto, que passará a operação regular, e anunciou a ligação a Telavive: “É uma aposta inteligente. Já conhecíamos esse mercado antes da pandemia e faz sentido ocupar esse espaço.” O presidente da ATP adiantou ainda que existem “quatro novas rotas de longa distância” previstas para 2027, com foco no Brasil e nos Estados Unidos, embora sem detalhar destinos. “São boas notícias, se forem concretizadas.”

Luís Pedro Martins sublinhou também o investimento anunciado na infraestrutura aeroportuária e a presença de Carlos Oliveira na liderança da ANA/VINCI Airports em Portugal. “Pelo conhecimento que tem da indústria e da região, pode significar um tempo diferente.”

Capacidade no limite e necessidade de nova pista

Apesar do desempenho, o grande tema é a capacidade. “Não conhecemos o limite real do aeroporto”, afirmou. “Já sentimos constrangimentos ao nível dos acessos e da gare, mas o ponto crítico é o taxiway.”

Segundo explicou, a atual configuração não permite aumentar significativamente o número de operações por hora. “Não estou a falar de um aeroporto com duas pistas independentes, mas de construir uma nova pista que permita transformar a atual em taxiway. Isso sim aumentaria a capacidade operacional.”

O Master Plan do aeroporto tem sido sucessivamente anunciado, mas ainda não é conhecido publicamente. “Temos expectativa de que contemple esse crescimento.”

Luís Pedro Martins recordou que, há 80 anos, quando se discutiu a localização do aeroporto, houve visão estratégica ao afastá-lo do centro urbano. “O que nos falta muitas vezes é essa capacidade de olhar à distância.”

Um aeroporto ao serviço da economia exportadora

O dirigente insistiu que o debate não deve restringir-se ao turismo. “É o aeroporto que serve a região mais exportadora do país.” Acrescentou que 40% das exportações nacionais têm origem neste território, o que reforça a importância da infraestrutura para além da mobilidade turística. Comparou ainda os números com a vizinha Galiza: “Os três aeroportos galegos juntos têm cerca de cinco milhões de movimentos. Nós temos 17 milhões. Isto é uma oportunidade.” Mas reforçou: “Só poderá crescer se houver investimento.”

Ligações ferroviárias e cooperação ibérica

Entre os desafios identificados está a articulação com outras infraestruturas, nomeadamente ferroviárias. Luís Pedro Martins apontou o potencial da Linha do Douro e a necessidade de eletrificação até à Beira Alta para melhorar a distribuição de fluxos turísticos. “Se do lado espanhol houver o mesmo compromisso até Salamanca, poderemos abrir novas perspetivas para Castela.”

Enquanto a cooperação com a Galiza é descrita como “fantástica” — sendo esta a única euro-região com uma entidade conjunta de turismo —, a relação com Castela e Leão enfrenta instabilidade política que dificulta a consolidação de projetos.

Está prevista, para 2026, a primeira ação de promoção externa conjunta da euro-região, dirigida ao Canadá e Estados Unidos.

 Diversificação de mercados e 2026 “exigente”

No plano da promoção, a Associação de Turismo do Porto e Norte está a reforçar a aposta nos mercados da Ásia-Pacífico, com presença em feiras na China e ações conjuntas com o Centro de Portugal e o Turismo de Portugal. Há igualmente foco no Brasil, México e Argentina, bem como na Austrália.

“A diversificação torna-se mais fácil quando existe diversidade de oferta e de mercados”, referiu, salientando que a região já depende de um leque alargado de origens. “Temos hoje dez mercados que nos dão robustez.”

Quanto a 2026, o cenário é prudente. “Se o contexto internacional não se deteriorar, poderá ser um ano exigente, mas positivo.” A condição, reiterou, é que as infraestruturas acompanhem o ritmo. “O crescimento está aí. Agora é preciso garantir que temos capacidade para o sustentar.”