O desempenho turístico do Porto e Norte voltou a superar a média nacional em 2025 e entrou numa nova fase de maturidade. No 35.º Congresso Nacional da Hotelaria e Turismo, que reuniu cerca de 500 participantes, Luís Pedro Martins, presidente da Associação de Turismo do Porto e Norte, traçou um diagnóstico detalhado da evolução da região, defendendo que o principal objetivo deixou de ser apenas atrair visitantes: passa agora por conseguir fixá-los no território, sobretudo fora da Área Metropolitana do Porto.
“O 2025 foi, mais uma vez, um recorde em todos os indicadores de desempenho, não apenas em procura mas também em proveitos arrecadados pela região. E, de forma muito significativa, estamos acima da média nacional em praticamente todos os indicadores”, afirmou.
Para o responsável, estes resultados ganham especial significado por surgirem após a pandemia, que alterou estruturalmente a estratégia turística. “Depois da pandemia houve uma aprendizagem para todo o país: a importância do mercado interno. E nós fizemos uma promessa: nunca mais voltar a perder esse mercado.”
Até 2020, o mercado nacional tinha um papel secundário na região. Hoje é um dos pilares do crescimento. “Passámos a valorizá-lo rapidamente e a permitir que crescesse. E os números confirmam isso.”
Segundo Luís Pedro Martins, a região regista cerca de 5,4 milhões de dormidas do mercado interno, com crescimento de 4,5% face ao ano anterior, depois de dois anos consecutivos com aumentos na ordem dos 10%. “Fomos a região com mais turistas, mais hóspedes e mais dormidas nessa categoria. Não há guerra de rankings entre regiões, até porque Portugal teve um bom momento, mas quando os números são tão significativos também devem ser assinalados.”
As receitas fixaram-se nos 1.1 mil milhões de euros, que demarca um crescimento de quase 9%, relativamente a 2024.
Da dependência espanhola à diversificação internacional
A pandemia também expôs outra fragilidade: a dependência de mercados próximos. “Num primeiro momento estávamos muito dependentes do mercado espanhol e de mercados de proximidade. Isso tornava-nos fortes em city breaks, mas não permitia distribuir o turismo pelo território.” O Porto concentrava grande parte da procura e as estadias eram curtas. A resposta foi reposicionar o destino. “Era necessário investir noutros produtos: turismo de natureza, turismo cultural, Caminhos de Santiago. A vantagem é que somos uma região com um portfólio turístico muito amplo, não dependemos de um ou dois produtos.”
Estados Unidos tornam-se decisivos para o crescimento do interior
A mudança mais relevante ocorreu nos mercados de longa distância. “O mercado americano, que em 2019 tinha pouca expressão, é hoje o segundo mercado da região.” O impacto não foi apenas quantitativo, mas também territorial: “Estes mercados gostam de explorar território e procuram autenticidade. Foram fundamentais para fazer crescer subdestinos da região., caso como o Douro, que indicou ser o exemplo mais claro: “Hoje o mercado americano é o primeiro mercado no Douro.”
O Canadá cresceu 9% e o Brasil mantém-se no top 10, reforçando o peso dos mercados intercontinentais na estratégia regional.
Reino Unido sobe para quarto mercado
Entre os mercados europeus, a principal surpresa foi o Reino Unido, com um crescimento de 13.6%: “Em apenas cerca de três anos, fruto da atração de eventos, da entrada de novas companhias aéreas e de ações promocionais, o Reino Unido ultrapassou o mercado alemão e está muito próximo do francês.”
“Houve uma aposta clara, inclusive com parceiros como a Condé Nast e ações gastronómicas com chefs Michelin. Os números começaram a aparecer e confirmaram a estratégia.” Também Países Baixos (+8%) e Irlanda (+9%) cresceram de forma consistente.
“O problema não é levar turistas, é fixá-los”
Apesar dos resultados, o principal desafio permanece fora dos grandes centros urbanos. “Nós já conseguimos levar turistas a Trás-os-Montes através da animação turística. O problema é outro: não conseguimos fixá-los.” A razão, segundo o responsável, é simples: “Durante o dia estes mercados valorizam a autenticidade como a gastronomia, paisagem, cultura. Mas quando chega a hora de dormir, a exigência aumenta e falta alojamento qualificado.” Devido a isso, deixa um apelo direto ao investimento: “Vale a pena apostar em territórios de baixa densidade, não apenas em turismo rural, mas em unidades com um nível mínimo de qualidade.”
Recursos existem, infraestruturas não
Para Luís Pedro Martins, a região não sofre de falta de produto turístico: “Temos gastronomia, vinhos, património cultural, castelos, património natural imenso e o único parque nacional do país”, o problema está nas condições de visita. “Há territórios com enorme potencial onde faltam infraestruturas, rede viária, mobilidade e sinalética. Isso precisa de ser feito com urgência.” O responsável foi particularmente direto sobre o Parque Nacional da Peneda-Gerês: “É o único parque nacional do país e está, muitas vezes, maltratado.”
Interior começa a dar sinais, mas precisa de massa crítica
Apesar das dificuldades, começam a surgir indicadores positivos. “Há dez anos ninguém acreditaria que poderia existir um restaurante Michelin em Bragança, e hoje existe. Isso mostra que o território tem potencial.” No entanto, um investimento isolado não resolve o problema. “Uma unidade não chega. É preciso massa crítica para que o resto cresça.”
O futuro: crescer menos no Porto e mais no território
O presidente da Associação de Turismo do Porto e Norte considera que a região entrou numa nova fase do desenvolvimento turístico. “Durante anos o objetivo foi trazer turistas. Hoje o objetivo é distribuir.” A estratégia passa por manter a diversificação de mercados e produtos, mas com foco territorial: “Sempre olhámos para o Porto como porta de entrada. Agora é preciso olhar para o interior e transformar visitas em estadias.” Conclui afirmando: “O que falta à região não é procura. O que falta é capacidade de permanência. Quando conseguirmos fixar o turista no território, o turismo do Norte dá o salto definitivo.”





