O 35.º Congresso da Associação da Hotelaria de Portugal (AHP) reuniu na Alfândega do Porto, de 11 a 13 de fevereiro, cerca de 500 agentes do setor hoteleiro nacional, incluindo empresários, associações regionais, autoridades e especialistas.
Num momento marcado pelo balanço de um ano recorde para o turismo em Portugal e pelos desafios recentes provocados por intempéries, o evento serviu para debater o futuro do setor, políticas públicas, infraestruturas, formação e internacionalização, reunindo vozes-chave como o Presidente da República, Marcelo Rebelo de Sousa, o presidente da AHP, Bernardo Trindade, Francisco Calheiros, presidente da Confederação do Turismo de Portugal (CTP), Luís Pedro Martins, presidente do TPNP, e o secretário de Estado do Turismo, Pedro Machado.
Resiliência e trajetória histórica do turismo em Portugal
A hotelaria e o turismo foram, ao longo da última década, um dos setores mais expostos às sucessivas crises que marcaram o país e, simultaneamente, um dos que melhor resistiu. Essa foi a ideia central deixada por Marcelo Rebelo de Sousa na sessão de abertura do congresso. “Já estivemos juntos noutras ocasiões, numa matéria que é fundamental para todos nós, para o país e para os portugueses: a hotelaria e o turismo”, começou por afirmar o Presidente da República, sublinhando a ligação institucional e simbólica que tem mantido com o setor ao longo do seu mandato.
Na opinião de Marcelo Rebelo de Sousa, foi a pandemia que marcou de forma mais profunda o setor. “Depois enfrentámos em conjunto a pandemia, de 2020 para 2021, em várias ondas, ora melhorando, ora piorando, ora abrindo, ora confinando”, afirmou, lembrando que, nesse período, percorreu o território nacional ao lado dos agentes turísticos: “Estivemos juntos por todo o território a puxar pelo turismo do nosso país”. A guerra na Ucrânia e o surto inflacionista voltaram a testar a resiliência da atividade. “Depois aguentámos a guerra e a inflação, em 2022 e no início de 2023. E quando digo aguentámos, aguentámos todos”, frisou, alargando a responsabilidade e o mérito a empresários, gestores e trabalhadores.
O Presidente evocou ainda um momento de debate mais estrutural sobre o modelo turístico nacional, quando se questionava “se era bom ou não ter turismo no nosso país, se era justificável aquilo que se queria, e ao menos turismo vindo do estrangeiro”. Uma dúvida que classificou como “existencial”, mas que acabou por ser superada pelos resultados e pelo reconhecimento internacional alcançado.
Apesar da retoma do crescimento, o Presidente da República alertou para desafios estruturais que permanecem. Referiu a persistência de conflitos internacionais, o impacto da inflação no rendimento disponível das famílias e as assimetrias entre mercados: “Há países que continuam a crescer, como o turismo americano e canadiano, e aqui e ali o europeu. Mas outros não”. Nesse contexto, salientou o papel do mercado interno: “Tem sido o turismo interno a aguentar muitíssimo bem aquilo que, de vez em quando, é a retração do turismo internacional.”
Hotelaria como motor do turismo e desafios da infraestrutura e mão de obra
A intervenção de Bernardo Trindade, presidente da Associação da Hotelaria de Portugal (AHP), na sessão de abertura do 35.º Congresso Nacional da Hotelaria e Turismo, reforçou a centralidade do setor no desenvolvimento económico do país e sublinhou os desafios estruturais que persistem, mesmo num momento de retoma e crescimento.
O dirigente começou por expressar solidariedade para com os associados afetados por catástrofes naturais recentes: “Solidariedade a quem perdeu familiares, solidariedade a quem perdeu bens materiais, solidariedade a quem perdeu esperança. Muita força a todos os nossos associados do centro ao sul, do Norte ao Algarve”.
Recordou que esta era a primeira vez em 21 anos que a AHP regressava ao Porto para um congresso, após a última visita em 2005, e destacou a rede de mais de mil associados distribuídos por todo o território nacional, desde Trás-os-Montes aos Açores. “A hotelaria é o grande hardware do setor do turismo: é onde há mais investimento na lógica da formação bruta de capital fixo, muito ligada ao nosso território”, afirmou.
Bernardo Trindade destacou ainda a importância de políticas públicas alinhadas com o setor e a necessidade de clarificação sobre a utilização da taxa turística: “Dizemos em Lisboa, dizemos no Porto e em Matosinhos: é preciso colocar um selo que diga que os equipamentos urbanos foram pagos pela taxa turística. Não resolve todo o problema, mas mitiga, educa, muda a perceção.” Sublinhou a importância de envolver os empresários na decisão sobre a aplicação da taxa e na criação de um fundo de desenvolvimento turístico: “Somos cobradores da taxa, queremos adicionar o conhecimento que resulta da relação de proximidade com os turistas”.
As infraestruturas aeroportuárias foram outro ponto crítico, com destaque para o Porto e Lisboa. Bernardo Trindade alertou para a saturação futura dos aeroportos e os constrangimentos de capacidade: “Com o aeroporto saturado, teremos mais 45 hotéis até 2028 em Lisboa, e mais de 35 novos hotéis no Porto. É preciso olhar para a infraestrutura atual.” Manifestou ainda preocupação com o fim da moratória do Entry Exit System a 31 de março e com a mobilização de agentes nos aeroportos, sublinhando que “o desafio é gigante. São muitos remendos”.
No domínio da aviação, saudou o crescimento da TAP no Porto e a manutenção de 50,1% do capital na esfera nacional, destacando o interesse estratégico dos potenciais investidores: “Dos Açores vêm preocupações, a saída da Ryanair é um problema sério no combate à sazonalidade. A indefinição do futuro da SATA é outro problema sério”.
A necessidade de mão de obra qualificada e de políticas eficazes de acolhimento foi outro eixo da intervenção: “Porque o turismo é uma atividade mão de obra intensiva, precisamos de pessoas. A via verde do governo para simplificar autorizações de trabalho não é suficiente. O governo tem de revisitar este tema.”
Por fim, reiterou a posição da AHP sobre a legislação hoteleira: “Não é necessária qualquer revolução no sistema. Tal como está, funciona perfeitamente. O que é preciso é corrigir algumas deficiências que a aplicação prática da lei revelou… os hoteleiros conhecem as tendências, sabem o que deve ser flexibilizado para permitir a inovação e a resposta à procura.”
Bernardo Trindade concluiu a sua intervenção apelando à partilha de experiências ao longo do congresso: “A pensar na hotelaria, no turismo, em Portugal, vamos fazer o que ainda não foi feito.”
Crescimento turístico sustentável e aposta em mercados de maior valor
A sessão de abertura do congresso contou, também, com a intervenção de Francisco Calheiros, presidente da Confederação do Turismo de Portugal (CTP), que frisou a dimensão estratégica e económica do setor, evidenciando a sua importância como motor da economia nacional.
Francisco Calheiros começou por destacar o desempenho do turismo em 2025, classificando o setor como “saudável” e recordando que nunca antes os turistas tinham gasto tanto em Portugal. “As receitas turísticas no país cresceram 6,1% em 2025, atingindo um novo máximo de 29,4 mil milhões de euros, superando as receitas de 27,7 mil milhões registadas em 2024”, sublinhou, acrescentando que este crescimento não se limita à quantidade de turistas, mas à sua qualidade: “As receitas têm crescido mais que as dormidas. Ou seja, a qualidade impera sobre a quantidade e assim geramos mais valor para o país.”
O dirigente salientou a necessidade de continuar a atrair turistas de elevado poder de compra, reforçando a importância dos mercados norte-americano e asiático, incluindo China, Japão e Coreia do Sul. As ligações aéreas, lembrou, são determinantes para a estratégia de captação: “As atuais ligações diretas com cidades dos Estados Unidos e com a capital da Coreia do Sul são essenciais e será desejável haver um reforço destas ligações.”
Francisco Calheiros não escondeu as limitações estruturais que ainda condicionam o setor, apontando para a necessidade de um novo aeroporto como prioridade estratégica: “Sem um novo aeroporto [em Lisboa], ou no mínimo sem uma solução intermédia, temo que a próxima estratégia para o turismo tenha de ser várias vezes atualizada.” E acrescentou um apelo claro ao Governo: “Não haja receio em decidir, em ficar com o ónus da decisão ou em recuar um pouco. Ninguém levaria a mal uma pequena inversão na estratégia.”
A mobilidade interna também mereceu destaque, com referência à ferrovia e ao TGV como elementos centrais para a conectividade regional e o desenvolvimento sustentável do turismo: “A ferrovia é essencial para a mobilidade em Portugal. A oferta turística em todas as regiões tem crescido e é diversificada, pelo que temos de dar condições para que os turistas tenham facilidades nas ligações entre regiões.”
O presidente da CTP também elogiou a modernização e a expansão da hotelaria portuguesa como fator de competitividade e estabilidade do país como destino turístico: “A hotelaria em Portugal continua a crescer e a modernizar-se, ajudando o país a consolidar-se como um destino turístico competitivo na Europa.” E concluiu lembrando a necessidade de adaptação contínua às mudanças rápidas do setor, citando John Kennedy: “A mudança é a lei da vida. E aqueles que apenas olham para o passado ou para o presente irão com certeza perder o futuro.”
Agenda internacional, formação e cooperação estratégica para o turismo português
A valorização da informação e da capacidade de decisão foi outro dos eixos da intervenção. Pedro Machado destacou que a agenda em curso integra uma preocupação clara com dados e inteligência aplicada ao setor: “Um dos dados principais tem a ver com o caminhar dos dados, da informação e da ajuda à decisão”. A disponibilidade de informação, defendeu, deve servir os Estados e apoiar políticas públicas mais eficazes, nomeadamente em matérias como sustentabilidade e mitigação de impactos.
A cooperação internacional mereceu igualmente destaque, em particular com os países de língua oficial portuguesa e com parceiros ibero-americanos. O secretário de Estado enquadrou essa cooperação como uma via de benefício mútuo, quer ao nível da formação, quer na mobilidade profissional: “Portugal tem aqui uma oportunidade de, por um lado, reforçar o papel importante da cooperação, mas também (…) que esta cooperação possa resultar em vantagem e mais valia para ambos os países, nomeadamente no reforço (…) deste intercâmbio de mão de obra qualificada que podem encontrar, cá e lá, oportunidades”.
Num plano interno, Pedro Machado procurou contrariar algumas narrativas críticas sobre o crescimento do setor. “Não há turismo a mais em Portugal”, afirmou de forma direta, acrescentando que, ao contrário da perceção de ameaça frequentemente associada ao fenómeno, “Em muitos casos é fator de coesão. Em muitos casos é fator de crescimento”. Recordou ainda que diversos investimentos e equipamentos só foram viabilizados graças às receitas do setor, sublinhando que “os próprios programas de turismo em Portugal apontam para investimentos em lugares, em equipamentos que provavelmente não teriam a sua viabilidade se não fossem financiados através das receitas do turismo”.
A encerrar, deixou uma nota sobre o contexto geopolítico e a necessidade de adaptação estratégica, lembrando que “não estamos confinados à Europa” e que o centro de crescimento económico se desloca progressivamente para outras geografias, nomeadamente a Ásia. A mudança estrutural do mundo, nas cadeias de valor, nos fluxos turísticos e nas motivações dos viajantes, exige, na sua leitura, uma visão internacional mais ambiciosa e uma capacidade de posicionamento que consolide o turismo como um dos pilares do desenvolvimento económico nacional.





