Início destaque Paulo Brehm: “Quando o ambiente falha, o turismo paga a conta”

Paulo Brehm: “Quando o ambiente falha, o turismo paga a conta”

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No passado sábado, na Praia da Rainha, em Cascais, cerca de 40 voluntários, entre os quais o signatário, retiraram 14 550 litros de algas invasoras do areal. Foram horas intensas, 97 sacos cheios, costas doridas e a consciência tranquila de quem sabe que fez a sua parte. Não resolvemos o problema. Minimizámo-lo. E isso, hoje, já é muito.

Estas algas, (para os mais curiosos – Rugulopteryx okamurae) não são apenas um incómodo visual. Destroem habitats, alteram ecossistemas, degradam praias e afastam pessoas. Quem é que gosta de ver uma praia sem conseguir vislumbrar areia, ou andar a escorregar naquele visco esverdeado até chegar à água, ou nadar com okamuraes

Mas atentem, quando as pessoas se afastam das praias, afastam-se também dos hotéis, dos restaurantes, das atividades de animação, dos operadores turísticos e, no limite, do destino.

Há assim que o dizer sem rodeios: isto não é só uma questão ambiental. É também uma questão económica. É negócio.

Cascais tem a sorte de ter como um dos seus ilustres residentes o Miguel Lacerda – ambientalista de longa data e fundador da CASCAISEA – que tem feito, com um grupo crescentemente alargado de pessoas, o trabalho que muitas instituições, incluindo as de carácter público com responsabilidades nestas áreas, não conseguem fazer com a regularidade que se impunha. O Miguel Identifica problemas, denuncia negligências, mobiliza voluntários, organiza ações concretas e dá a cara. Sem filtros. Sem discursos vazios.

Enquanto isso, também a atividade turística parece um pouco distraída destas questões, como se praias sujas, algas invasoras, lixo marinho e plástico não tivessem impacto direto no produto que vende. Têm. E terão cada vez mais.

Quando o cliente começa a evitar uma praia porque está suja, não muda apenas de areal – muda de destino. E quando muda de destino, não perde apenas a praia: perde-se ocupação hoteleira, restauração, as excursões, transferes, experiências. Perde-se competitividade.

Por isso a pergunta impõe-se: o que fazer?

Bom, pensei em dar aqui este alerta, que é também um apelo. Aos responsáveis pelo ecossistema turístico. Para que falem, debatam, envolvam quem sabe e até que apoiem – e não falo apenas de patrocínios financeiros – que obviamente também fazem falta. Mas falo de apoio logístico, de comunicação, de envolvimento ativo, de tempo, de pessoas, de canais. Falo de compromisso real.

Miguel Lacerda pode – e sei que o faz – dar palestras, sensibilizar equipas, organizar ações de limpeza com empresas, criar experiências de impacto positivo. Porque não integrar estas ações em programas corporativos? Porque não vender, através das DMC, ações de limpeza de praia em Portugal, antecedidas ou seguidas de uma palestra sobre oceano, biodiversidade e responsabilidade ambiental?

Onde estão os hotéis? A restauração? O casino? As marinas? As empresas de animação turística? Onde estão as DMO, tão rápidas a falar de sustentabilidade nos planos estratégicos?

A sustentabilidade não se resolve com brochuras bonitas nem com slogans. Resolve-se com ação. E com quem já está no terreno a fazer.

A CASCAISEA mostra que é possível agir, mesmo com poucos meios. Mas não pode — nem deve — fazê-lo sozinha. Se o turismo depende de praias limpas, mares saudáveis e territórios vivos, então está na hora de o setor olhar de frente para esta realidade e assumir a sua parte.

No final do dia de sábado, a praia estava mais limpa. E os turistas que por ali passaram, uns ofereceram-se para ajudar, outros agradeceram o trabalho. Faltam, como é hábito, alguns dos portugueses que podem fazer alguma coisa.

Lembrem-se: quando o ambiente falha, o turismo paga a conta.

Pensem Sustentabilidade

Paulo Brehm

Consultor de Sustentabilidade