O futuro aeroporto de Alcochete foi um tema presente em debates no 50.º Congresso da APAVT, que ocorreu em Macau, onde o Governo e concessionária expuseram leituras distintas sobre a rapidez possível na execução do projeto.
José Luís Arnaut, presidente do conselho de administração da ANA – Aeroportos de Portugal, avisou que cumprir a meta de entrada em operação em 2035 só será possível num contexto “perfeito”, enquanto o secretário de estado das infraestruturas, Hugo Espírito Santo, reafirmou que esse continua a ser o horizonte temporal do Executivo.
ANA fala em prazos “realistas” e obra gigantesca
Arnaut explicou que a proposta entregue pela ANA aponta para 2037, defendendo que o calendário integra “margens de segurança” necessárias para um empreendimento de dimensão invulgar. O responsável destacou a complexidade das fases prévias à construção — estudos ambientais, discussão pública, definição do modelo, elaboração do projeto e, só depois, o início da obra.
Recordou também que a infraestrutura projetada terá uma escala “sem paralelo” no país, equivalente a cinco vezes o Aeroporto Humberto Delgado, obrigando à criação de um estaleiro com mais de cinco mil trabalhadores.
Apesar de dizer que gostaria de ver o aeroporto concluído mais cedo, Arnaut foi prudente. “Apontar para 2035 é possível apenas num cenário idílico”, referiu, admitindo que providências cautelares ou contestação ambiental podem introduzir atrasos. Ainda assim, frisou que o interesse público “está acima de tudo” e que a empresa está empenhada em encurtar prazos conjuntamente com o Governo.
Governo pressiona por 2034/2035 e elogia eventual aceleração
Do lado do Executivo, Hugo Espírito Santo insistiu que o objetivo político é ter Alcochete operacional entre 2034 e 2035, classificando a estimativa de 2037 como “responsabilidade exclusiva” da concessionária.
“Se a ANA conseguir antecipar etapas, tanto melhor. Seria uma demonstração clara de compromisso com o Estado português”, afirmou. O secretário de Estado garantiu que é possível a concessionária de acelerar procedimentos e assegurou que o Governo fará a sua parte para que o calendário seja cumprido.
Acessos: ponte pronta antes do aeroporto e alta velocidade dedicada
O governante detalhou ainda o pacote de acessibilidades associadas ao novo aeroporto. O concurso para a terceira travessia do Tejo deverá ser lançado em 2027, com conclusão prevista para 2032/2033. A nova ponte será fundamental não só para o acesso a Alcochete, mas também para a ligação ferroviária de alta velocidade a Madrid.
Hugo Espírito Santo revelou que está previsto um troço direto de alta velocidade a partir do Barreiro, que ficará concluído antes da própria infraestrutura aeroportuária. Paralelamente, o Governo negocia com a Brisa o prolongamento da A33 e outras intervenções rodoviárias, num pacote global de investimentos que ascende a 60 mil milhões de euros na próxima década — “financiamento maioritariamente privado”, sublinhou.
Outra peça decisiva é a desmilitarização do Campo de Tiro de Alcochete, processo que obrigará a Força Aérea a escolher uma nova localização até ao início de 2026. Existem duas hipóteses em estudo, uma delas com forte apoio das autarquias.
Filas na Portela são “um embaraço” e mudanças vão começar
No mesmo congresso, Hugo Espírito Santo abordou também as longas filas no aeroporto de Lisboa, classificando-as como “um embaraço para o Governo”. O secretário de Estado pediu desculpa pelo sucedido e garantiu que a situação está a ser acompanhada diariamente.
Segundo o governante, a origem do problema passa pela escassez de agentes da PSP, a lentidão dos sistemas tecnológicos e dificuldades nos e-gates. Com o diagnóstico feito, assegura que o objetivo é ter tudo normalizado até ao verão.
Para acelerar o processamento de passageiros, Governo e ANA vão redesenhar as áreas de partidas e chegadas: haverá um aumento de 30% no número de postos de controlo e de e-gates nas partidas e reforços de 30% e 70%, respetivamente, nas chegadas.
A Portela deverá ainda ganhar dois novos slots diários já em 2026, com crescimento progressivo até atingir 42 slots em 2030, dependendo do andamento das obras.






