Depois de quase quinze anos à frente da APAVT, Pedro Costa Ferreira despede-se da presidência com a serenidade de quem cumpriu o seu caminho – e a convicção de que viveu os momentos mais difíceis da história recente do turismo. Entre a pandemia, a indefinição eterna do novo aeroporto e um congresso em Macau que promete marcar época, o líder que conduziu a associação por cinco mandatos fala sobre o que conquistou, o que ficou por fazer e a vontade de, finalmente, ter mais tempo para as suas empresas – “se as minhas sócias e os meus sócios deixarem”, diz com humor.
Opção Turismo: Mais de dez anos à frente dos destinos da APAVT. Ou seja, o presidente, até ao momento, com mais mandatos feitos (e até pode ir a mais um ou uns…). Além do próximo congresso da APAVT, sem dúvida um grande marco na história da associação, que mais gostaria de destacar ao longo desse tempo todo? (Resumindo, satisfeito, mas cansado?)
Pedro Costa Ferreira: Foram catorze anos à frente dos destinos da Associação, serão quinze, até final do ano de 2026 (cinco mandatos).
A agenda da APAVT é diversa e complexa, a Associação deve estar, em cada momento, onde estiverem os interesses dos associados, do sector e do turismo nacional. É difícil destacar o que quer que seja.
Ainda assim, diria que, compreensivelmente, o período da pandemia foi o mais triste, o mais exigente e também o mais compensador. Nunca os problemas foram tão grandes e tão generalizados; provavelmente, nunca a APAVT foi tão importante para o sector. Vou-me lembrar para sempre.
OT: E aquilo que gostaria de ter feito na APAVT e não foi conseguido? Quais os entraves… Da classe? Política? Desespero?
PCF: É difícil pensar em algo que ficou por fazer, porque as necessidades são sempre muitas e muito diversas, a verdade é que a maior parte dos dossiers ficam abertos por muitos anos.
Mas sim, acho que posso dar um bom exemplo. Gostaríamos muito de ter visto nascer um fundo para compensação dos passageiros por falência das companhias aéreas, chegámos a ter diálogos muito interessantes nesse sentido, com um dos Governos, mas ainda não foi conseguido. Teria sido excelente se se tivesse conseguido. A responsabilidade de gestão do risco, ao longo da cadeia de valor, está excessivamente e injustamente centralizada nas agências de viagens, com evidentes perdas para o consumidor.
OT: … já agora e na sequência da pergunta anterior, algo que tenha corrido mal? Posso perguntar, o porquê?
PCF: A APAVT é uma Nau que navega há setenta e cinco anos, nunca olhamos para trás a pensar no que correu mal, olhamos sempre em frente, foi assim que vivemos os últimos setenta e cinco anos.
Luís, o tema do nosso 50º congresso é “Olhar o futuro”!..
OT: A sua entrada para a APAVT marcou também em Portugal (e não só) o começo da, digamos, “grande história do parto do novo aeroporto de Lisboa. Não se sente frustrado por (possivelmente) deixar o cargo sem ver, na realidade, nada feito? E o mesmo até com o projeto TGV.
PCF: Triste, frustrado e até revoltado. Cheguei a participar numa linda festa, no Montijo, do lançamento da primeira pedra do novo aeroporto!…
A resolução dos problemas aeroportuários é fundamental à manutenção do crescimento do turismo nacional, e o crescimento do turismo nacional é fundamental ao crescimento económico português. Ora, sem crescimento económico não teremos futuro, em Portugal. Não estou optimista.
Ainda assim, aguardo com expectativa a ida do Senhor Secretário de Estado das Infraestruturas ao nosso congresso, tenho uma excelente opinião dele, veremos se nos consegue entusiasmar…
OT: O que espera deste congresso em Macau?
Com sinceridade, espero um congresso memorável.
Por ser feito do outro lado do Mundo, por reunir cerca de 1000 pessoas, por ter condições fabulosas de realização, pelos temas e oradores, por ser realizado às portas do maior mercado emissor do Mundo.
A verdade é que sinto um enorme entusiasmo nas equipas.
Estamos tranquilos, satisfeitos e expectantes. Sinceramente, acho que pode vir a ser um “congresso para a história”
OT: E agora, para terminar, caso não continue para novo mandato (sei que está cansado, mas…ainda algumas situações para resolver junto do Governo), vai poder dormir mais calmo e sossegado, dedicando-se profissionalmente às suas empresas?
PCF: Não vou continuar, como se sabe.
Durmo sempre calmo e sossegado, não será por aí.
Mas sim, espero ter mais tempo para as minhas empresas, veremos se as minhas sócias e os meus sócios estão de acordo!… 😊
Estar na Presidência da APAVT nunca foi um sacrifício, mas reconheço que é extremamente exigente, terei certamente saudades, mas certamente que viverei menos pressionado…





