Mais de 40.000 pessoas encheram os pavilhões do Excel, em Londres, para a edição de 2025 do World Travel Market (WTM), um evento que continua a ser um barómetro essencial para a indústria global de viagens. Depois de um verão muito forte para as companhias aéreas, as sessões e painéis estiveram repletos para ouvir as mais recentes tendências do setor e, sobretudo, como transformar o forte crescimento de passageiros em margens e rentabilidade mais robustas.
Aqui ficam, então, os principais pontos discutidos – um resumo do que está a moldar o futuro da aviação.
1. Uma vaga de capacidade – mais aviões e muito mais ligações
Um dos números mais impressionantes é a escala das encomendas de aviões. Segundo a Airbus e a Boeing, existem mais de 15.000 aeronaves em carteira de encomendas, sinalizando confiança sustentada dos operadores na procura a longo prazo e abrindo espaço para mais capacidade. Não se trata apenas de reforçar ligações em rotas-chave, mas também de abrir novas rotas entre continentes. África foi destacada como uma região que necessita urgentemente de novas ligações aéreas, essenciais para o desenvolvimento regional.
2. Transformação digital e eficiência impulsionada pela IA
Era inevitável que a IA e a inovação digital dominassem a discussão sobre eficiência. Enquanto o turismo explora chatbots e itinerários inteligentes, para as companhias aéreas a prioridade é eficiência operacional e redução de custos. A IA está a ser usada para manutenção preditiva, planeamento mais inteligente e melhor gestão de recursos. Ao mesmo tempo, a experiência do passageiro está a ser transformada por sistemas biométricos, segurança inteligente e personalização baseada em dados, tornando as viagens mais fluidas e adaptadas ao perfil de cada viajante.
3. A sustentabilidade ganha força: a aposta no SAF
O Sustainable Aviation Fuel (SAF) continua a ser um tema central nos fóruns de turismo – e esteve muito presente em Londres. A easyJet destacou o papel do SAF na caminhada para as zero emissões líquidas até 2050. Segundo as projeções apresentadas, a produção de SAF duplicou em 2024 e deverá voltar a duplicar em 2025. Apesar de continuar a representar uma pequena fração das necessidades de combustível da aviação, a aposta no SAF mantém o seu dinamismo. Transportadoras do Médio Oriente, como a Emirates e a Etihad, também mostraram como estão a integrar SAF nos seus voos de longo curso, reduzindo emissões de CO₂. A mensagem é clara: a sustentabilidade deixou de ser um “extra” – é uma prioridade estratégica e competitiva, com impacto na reputação e na resiliência futura.
4. Divergências regionais e fatores de risco
Apesar do otimismo, o WTM sublinhou diferenças regionais importantes. Por exemplo, projeta-se uma queda de 6% nas chegadas à entrada nos EUA em 2025, o que poderá adiar o regresso aos níveis de 2019 até 2029. Entre os motivos estão a incerteza geopolítica, tarifas comerciais e inflação, que reduzem o rendimento disponível. Além disso, as companhias enfrentam atrasos nas entregas de novos aviões, limitando o crescimento mesmo com encomendas agressivas. Assim, a grande questão é: poderão os 15.000 aviões encomendados ser realmente entregues?
5. A transformação das viagens de negócios
Outra tendência marcante é a mudança no segmento corporate. O teletrabalho e a pressão para reduzir custos podem impedir o regresso aos volumes de viagens de negócios pré-pandemia. Isto coloca desafios às receitas, pois os passageiros corporativos eram responsáveis por ocupar os lugares premium mais rentáveis. Em resposta, muitas companhias estão a preencher essas cabines com viajantes de lazer de alto gasto, ajustando os seus modelos para reduzir a dependência do segmento empresarial. Isto tem implicações profundas na gestão de receitas, planeamento de rotas, estruturas tarifárias e na adaptação a este “novo normal”.
6. Crescimento estratégico no Médio Oriente
Pouco antes do evento, a nova companhia saudita, Riyadh Air, realizou o seu voo inaugural para Londres Heathrow. A companhia pretende colocar Riade no mapa global da aviação e é uma peça fundamental da visão saudita para 2030, que procura diversificar a economia para lá do petróleo e gás. Os restantes países do Golfo também destacaram o forte crescimento em encomendas de aviões e projetos aeroportuários. Esta região deixou de ser apenas uma potência emergente: é, hoje, a potência da aviação. EUA e Europa ficam para trás, condicionados por limites ao crescimento, acesso restrito a capital e políticas que restringem o setor.
7. Experiência do passageiro: mais inteligente e personalizada
Os dados tornaram-se o ativo mais valioso das companhias aéreas. A Amadeus apresentou o conceito de “perfis de viajante 360°”, combinando dados de fidelização, histórico de viagens e preferências. O resultado? Serviços hiperpersonalizados: entretenimento adaptado, ofertas específicas e assistência preditiva. A Amadeus destacou ainda inovações futuras, como câmaras de reconhecimento emocional que avaliam o estado de espírito dos passageiros, permitindo às equipas ajustarem a interação em tempo real. Esta personalização não é apenas luxo – é uma mudança estrutural na forma como as viagens são geridas, tornando-as mais fluídas e diferenciadas.
8. Riscos pela frente: economia, comércio e cadeias de abastecimento
Apesar das perspetivas positivas, o WTM recordou que há riscos substanciais. Tensões comerciais, tarifas elevadas e fragmentação geopolítica são preocupações reais. A isto juntam-se custos crescentes e inflação, que podem travar o crescimento. Além disso, as cadeias de abastecimento continuam frágeis, especialmente no acesso a peças aeronáuticas, o que pode atrasar planos de expansão. E há ainda o desafio da sustentabilidade: muitos viajantes querem opções mais verdes, mas poucos estão dispostos a pagar mais por elas.
Conclusão
Reunir em Londres as companhias aéreas e empresas de viagens de todo o mundo permitiu desenhar o retrato de uma indústria dinâmica e em transformação: a crescer em escala, a reinventar-se com dados e IA, e a colocar a sustentabilidade no centro das decisões. Mas o caminho não será linear. Tensões comerciais, atrasos nas entregas e recuperações regionais assimétricas podem travar o ritmo.
Para as companhias aéreas, a mensagem do WTM foi clara: investir em capacidade, abraçar a inovação digital e acelerar a sustentabilidade. Para investidores, reguladores e parceiros, a oportunidade está em apoiar esta transformação, sem perder de vista os riscos macroeconómicos que poderão redefinir como, onde e porquê viajamos nos próximos anos.





