Paulo Brehm, especialista reconhecido no domínio da sustentabilidade no turismo, partilha a sua visão sobre a importância das certificações para as empresas do setor. Com um percurso sólido junto de agências de viagens, operadores turísticos, alojamento e empresas de animação, tem vindo a destacar-se como uma referência nesta área. Em entrevista ao Opção Turismo, explica de forma clara porque é que as certificações em sustentabilidade — muitas vezes vistas como complexas ou dispendiosas — são, afirma, bem mais simples do que se pensa.
Opção Turismo: Paulo, antes de mais, como chegaste à sustentabilidade?
Paulo Brehm: De forma muito natural. Trabalhei e trabalho, como sabes, há vários anos em áreas ligadas ao turismo e à comunicação, mas sempre com um olhar crítico sobre o impacto do setor. Com o tempo, fui interiorizando a urgência das questões ambientais, sociais e éticas associadas à atividade turística. Percebi cedo que a sustentabilidade era, e é, uma responsabilidade real. Investi fortemente na aquisição de conhecimento e numa abordagem profissional à sustentabilidade, fiz vários cursos e obtive diversas certificações internacionais nesta área, incluindo do GSTC (Global Sustainable Tourism Council).
OT: E como se traduz isso na tua atividade?
PB: Tornei-me coach e auditor da Travelife, além de coach da Green Destinations/GTS, duas das principais referências internacionais em certificação de sustentabilidade no setor do turismo. Através de uma parceria com a consultora Bracing, tenho também vindo a implementar a ISO14001 em empresas turísticas, e apoio empresas de diferentes dimensões a tornarem-se mais sustentáveis, aliando a minha experiência e conhecimento a uma forte dose de pragmatismo e, muito importante, ao conhecimento do negócio. Defendo uma abordagem equilibrada: Os 3P’s – People, Planet and Profit – ou seja, advogo que as empresas não devem ficar reféns, mas antes cavalgar, a onda da sustentabilidade. Paralelamente, sou cofundador e membro do Think Tank da Sustentabilidade da Plataforma Nacional de Turismo, liderada pelo Professor Carlos Costa, da Universidade de Aveiro.
OT: Cada vez se fala mais em certificações de sustentabilidade. Mas afinal, para que servem e o que ganham as empresas com isso?
PB: Acima de tudo, ganham reconhecimento e, com isso, ganham negócio. Uma empresa certificada demonstra compromisso, rigor e resultados. Tem valor junto de clientes internacionais e nacionais — e mostra que contribui ativamente para um turismo mais responsável e com impacto positivo. No segmento corporate, por exemplo, as empresas, multinacionais e mesmo nacionais, estão – até por obrigação de negócio – a ficar muito exigentes nesta matéria. E mesmo no lazer, começam a aparecer clientes que olham para a sustentabilidade como fator de escolha. Ter uma certificação pode mesmo fazer a diferença. Aliás, no caso das empresas que trabalham no segmento de incoming, sejam hotéis, agentes de viagens, DMCs ou empresas de animação turística, vai ser praticamente impossível progredir sem uma certificação — os operadores internacionais, e muitos turistas, já estão a exigir essa garantia.
«…advogo que as empresas não devem ficar reféns, mas antes cavalgar, a onda da sustentabilidade»
OT: Existe alguma certificação nacional que responda a essa necessidade?
PB: Não! Para ser válida, uma certificação tem de ser reconhecida internacionalmente, alinhada com padrões como os do TSCA (Tourism Sustainability Certifications Alliance) — uma aliança global de certificações que cumprem critérios exigentes e comuns. E, claro, tem de haver auditorias. Em Portugal, temos algumas dessas certificações em funcionamento: Travelife, Green Key, Biosphere, Good Travel Seal (GTS, da Green Destinations)… todas são válidas, cada uma com o seu enfoque. A escolha depende da empresa.
OT: Mas temos o programa 360º do Turismo de Portugal…
PB: São coisas diferentes. O 360º é uma iniciativa excelente, a todos os títulos louvável, para ajudar as empresas a organizarem o seu reporte de sustentabilidade — o que é muito importante, até porque o Turismo de Portugal exige esse reporte para acesso a apoios e financiamentos. Mas não é uma certificação, nem pretende ser. O próprio TdP tem esclarecido isso. Aliás, não cometo nenhuma inconfidência se disser que temos estado em contacto para estabelecer pontos de ligação entre o 360º e certificações como a Travelife. São caminhos paralelos e absolutamente compatíveis.
OT: E quem quer financiamento bancário? As certificações ajudam?
PB: Sem dúvida. Os bancos estão cada vez mais atentos a quem tem critérios ambientais, sociais e de governança sólidos – os ESG, no acrónimo inglês (Environment, Social, Governance), que são os três pilares da sustentabilidade. Ter uma certificação válida ajuda — é mesmo uma vantagem no acesso a crédito ou no enquadramento de projetos de investimento.
OT: O que é preciso, então, para começar um processo de certificação?
PB: O primeiro passo é simples: escolher uma certificação reconhecida. O site do TSCA é um bom ponto de partida, com a lista dos seus membros, que cumprem os critérios mais relevantes. Depois é só entrar em contacto, pedir informações e perceber os passos seguintes. Em muitos casos, é mais simples do que parece.
OT: E o custo do acesso? não será muito caro?
PB: Não, de todo. Os valores são normalmente ajustados à dimensão da empresa. Há certificações que começam com valores muito acessíveis — algumas poucas centenas de euros por ano. A título de exemplo, ajudei há pouco uma empresa de tours recentemente constituída que tem ainda uma só pessoa, a conquistar uma certificação, e soube que lhe tinha custado 250 Euros!… Estas certificações são quase sempre geridas por ONGs ou organizações sem fins lucrativos. O objetivo não é fazer dinheiro, é ajudar a mudar as práticas, é uma questão de consciência. Cobram o estritamente necessário para assegurar os sistemas e o trabalho que exigem.
OT: E depois… para implementar tudo, uma “pipa de massa”?
PB: Pelo contrário, as empresas até acabam por poupar: reduzem consumos, melhoram processos, e depois ganham novos clientes. O que exige mais é tempo — tempo para olhar para dentro, rever práticas, alinhar procedimentos. Mas cada empresa faz o percurso ao seu ritmo. Umas avançam mais depressa, outras com mais calma. E há sempre a opção de contratar apoio externo.
OT: É esse o teu papel?
PB: Também. Ajudo empresas que querem certificar-se — desde a primeira análise até à auditoria final, sejam agências de viagens, operadores, empresas de animação turística, alojamento local ou hotéis. Interpreto critérios, ajudo a definir planos de ação, a organizar processos. Mas cada empresa escolhe o grau de apoio de que precisa. O importante mesmo é dar o primeiro passo.





