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A minha vida de director hoteleiro pode de repente se transformar e depois abruptamente passar para outra actividade unipessoal: O formador profissional.

Vim para Moçambique há 6 anos pela 3ª vez em comissão hoteleira. Em Angola, onde estava noutra comissão, tive um convite pelo anterior presidente da Federação de Futebol deste país, originado pelo serviço com os “Mambas”/Selecção de Futebol Moçambicana, no Lobito, durante o CAN2010, e que me trouxe a Nampula, Norte de Moçambique. Seria aqui no Hotel Lurio, que começaria a minha outra crónica Moçambicana.

Nos dias do meu 1º Curso de Formação de Formador no INEFP no Bairro Alto, Lisboa, em 2000 compreendi que ser formador nunca me iria dar de comer. Assim, costumava virar-me para as minhas colegas ao tempo e lhes dizia: “… vocês andam nisto porque têm os maridos de suporte…”. Os ganhos eram fracos, as oportunidades não abundavam, corrias muitos quilómetros e gastavas gasolina do teu bolso, e o pagamento do INEFP demorava 2 a 3 meses a compensar-te. Era um desafio. Corrias apenas por gosto e por falta de outra coisa na carreira. Mas adorava a adrenalina, nomeadamente com os miúdos do 9º e 10º anos, do programa de ensino especial, dos cursos técnico-profissional do INEFP.

No estado da formação técnico-profissional nestes lados, tu não és um Formador mas sim um missionário.

Em África ou vens num contrato especial de cooperação com o governo ou com uma ONG, e se fores criativo, no voluntariado. A Missão de outra forma pode ser dura, sem recompensa material correspondente, vives na desgraça. Tens um reconhecimento nas ruas de uma cidade como Nacala Porto, como o “Professor” e o “Formador Baptista”. Até que é lindo, e uma coisa encantadora. Tens de acreditar que tas a ser mais reconhecido pela utilidade que tens, e mais que tudo, que podes arranjar uns contactos para o próximo emprego do formando, e não propriamente para uma carreira na hotelaria dele.

Vim para cá, desta vez, em 2012 numa missão de recuperação de um hotel desse tal ex-presidente da FM de Futebol. E desde logo tive de acumular a função como Director do Hotel e da Formação. Depois juntei-me aos nossos compatriotas da “LUNA Hotéis & Resorts” e continuei como DG Operações e Desenvolvimento e Formação, em Nampula. Mais tarde fui recrutado para abrir o “Hotel Pérola de África” de uma empresa chinesa, aqui na Praia de Fernão Veloso, em Nacala Porto, onde tive de exercer a função de DG e Formador de todo o staff, na pré abertura do hotel. Durante esse estágio fui baleado em 2015 e fiquei internado 3 meses. Escapei da morte. O Allah tinha o escritório fechado e não entrei.

Voltei em “canadianas” para finalizar a missão e abrir o Hotel, finalmente. Iniciei então a minha empresa unipessoal de Consultoria Hoteleira e Formação Profissional. Os “Bons rapazes chineses” hão-de pagar por eu estar no lado errado do quarto, e espero a cirurgia e a indemnização. E tenho esperado tanto que já tenho os olhos em bico. O meu estágio nestes tribunais e outros que tais, tem sido mais do que tudo a promoção da minha estória vespertina como Formador.

Pois abruptamente e por destino da vida, a minha carreira, de quase reformado que nunca serei, se transformou numa de Formador Profissional, para sobreviver e esperar novas voltas da vida. Passou de ser uma necessidade, e uma actividade na procura de clientes, no dia-a-dia, entre hotéis e restaurantes apresentando-me como um “cota” Director de Hotel e Formador encartado, num dos seus hiatos desta já longa e comprida carreira, até a resolução dos pendentes.

Associei-me na Associação dos Hoteleiros da zona e os contratos para as Acções de Formação começaram a resultar. Na cidade de Nacala Porto já forneci formação a talvez 60% das unidades hoteleiras. Entre uma ou outra avença com restaurante aqui e ali, workshops com cursos rápidos de 15 horas, vou desbravando o parque hoteleiro desde Distrito. Mas a vida de formador, se em Portugal não dava para comer, aqui pode-te levar a desgraça completa e podes não ser capaz de pagar a renda da casa.

O sistema de ensino secundário aqui (prometo não falar de forma político social ou outra do género pois não é o meu campeonato), tem pouco que se lhe diga. Os formandos com o 12º ano não conseguem ler e a escrita tem a mesma qualidade daquela que encontras nos piores exemplos das mensagens do whatsapp.

O meu advogado no outro dia contou-me, que manifestou no tribunal ao juiz, não perceber o que é que o colega tinha escrito. Então como damos a nossa formação hoteleira nestes dias? As técnicas pedagógicas são acima de tudo….. uma boa preparação gráfica no Power Point, saber fazer desenhos no quadro branco, trabalho de grupo e role play. Se possível in loco no teatro do local de trabalho. Sim que ter queda para o teatro ajuda muito.

Na “Formação de Formadores” aprendemos que o formador tem que estar preparado para improvisar, para se adaptar, para descobrir em si mesmo o espírito da improvisação profunda, que nos é imposta pelas condições adversas que muitas vezes se nos apresenta a própria missão. Pois bem, meus amigos, já tive de tudo. Sem água, sem energia, sem cadeiras suficientes, com as oscilações de energia a “devorar” o meu projector a cada 3 minutos, e quando na formação de Higiene e Segurança Alimentar, que é acção de formação científico-tecnológica, preparada ao pormenor em PPT, tens que passar a contar estórias. É complicado. Assim passamos á acção. Nessa turma, entramos na cozinha chinesa da unidade, com os 20 formandos moçambicanos. Fomos logo rodeados, não muito simpaticamente, por 10 cozinheiros e chefes chineses, que desejosos de nos verem pelas costas, nos abreviaram a visita de estudo, isto no seu próprio hotel. A visita de Higiene e Segurança Alimentar for exemplar. Como dizem os anglófonos “no comments”.

A Formação no terreno e na estrada, em Moçambique, é para alguns mas acho que não será para todos. Por mim adoro, porque o “Cota” e o Formador combinam muito bem, mas pena que não dêem para pagar o “pai nosso” de cada dia.

Para a próxima há mais aventuras do formador vespertino.

Emídio Baptista

ebconsultoria108@gmail.com

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