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Moçambique mudou muito desde os anos 70, e depois nos anos 90 dos acordos de votações livres.

Prometo, no entanto, neste espaço evitar a política, o futebol, a religião e as coisinhas fora do tema hoteleiro e turístico.

As minhas experiencias profissionais e humanas em Moçambique cobriram praticamente todo o País neste anos desde 1994, quando vim para Maputo, Hotel Rovuma e Ilha de Bazaruto, como Director de Hotel, com o Grupo Pestana.

Nesses anos da ONUMOZ, missão da ONU em Moçambique, nos anos da preparação e depois da votação livre em 1994 no País, o Hotel Rovuma, vizinho da famosa Se Catedral, era um hotel quartel. Do  2º andar para cima, até ao 7º- ou 8º-andar, foi tudo alugado e transformado em gabinetes das varias representações militares.

Então convivi com os nossos militares portugueses da missão, com os nossos irmãos dos Palops, e com os indonésios que, na altura, sentia uma repulsa, até mesmo em me cruzar com eles. O motivo era, claro, Timor.

Mas o pior mesmo era que tínhamos um restaurante no 1º andar mas que a tropa pouco usava, pois fazias o catering e as festinhas nos gabinetes. O que era proibido, por clausurado contratual com a ONUMOZ, pois comidas e bebidas só para ser consumidas no nosso restaurante.

Então lá vinha a secretária de um dos coronéis ou generais pedir-me emprestado pratinhos e colheres.

Para quê?  E ela lá se justificava. Então lá tinha eu de puxar pelos galões, e perguntava-lhe:

Quantas estrelas tem o teu general?

– Tem 2 estrelas…

Diz então ao teu general que eu sou General (Manager) de 4 estrelas, e aqui quem manda sou eu. Estão proibidas as festas e o catering nos gabinetes. Só no nosso restaurante!

Foi de facto um desafio grande viver e conviver, na gestão de um hotel, com tantos militares. Mas era sempre muito garboso ser cumprimentado com grandes continências, a entrada do hotel e na recepção, pelos seguranças americanos da ONUMOZ, autentica tropa de elite.

Recordo com saudade os convites que tinha do nosso aquartelamento português na Matola, bem fora de Maputo nesse tempo, uns 12 km, divididos por terrenos e bairros espaçados e quase desabitados, onde à noite, se houvesse um furo no carro o melhor seria trancar tudo e chamar por ajuda através do “tijolo”. Sim porque os telemóveis nesse tempo eram autênticos tijolos.

Recordo que era convidado quase com aquela amizade e respeito do Director (General…Manager), naquele código militar que só os que pela tropa passaram sabem avaliar. Mas aquela Cozinha móvel de campanha fazia milagres, e até que se produziam algumas iguarias de lhe tirar o chapéu, aliás o capacete. No Natal fui convidado e nunca mais esqueço o delicioso Bacalhau assado com todos, bem regado com o nosso azeite nacional e um Dão tinto “Caves São João Porta dos Cavaleiros” Reserva 1988. Só para oficiais superiores! Não esquecer que eu era General….Manager.

Com as eleições livres de 1995 em Moçambique, o hotel fechou para obras, e o grupo Pestana passou a dedicar-se mais ás Ilhas de Inhaca e Bazaruto, onde eu passei a exercer mais as minhas tarefas.

Aquele grande abraço e Kanimambo pela vossa atenção.

Emidio Baptista (ebconsultoria108@gmail.com)