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O Leve São Tomé

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São Tomé e Príncipe são duas ilhas recortadas pelo Oceano Atlântico, no Golfo da Guiné. Têm pouco mais de 200 mil habitantes que foram crescendo nas ilhas desde 1470, quando os portugueses as descobriram inabitadas. Ao visitar São Tomé e Príncipe em Abril deste ano, sonhei o ar aturdido e maravilhado dos portugueses ao avistar aquele paraíso de selva junto ao mar. Provavelmente uma sensação semelhante à que teve Mark Shuttleworth, um informático milionário sul-africano, que através da sua empresa HBD (Here be Dragons), tem investido de forma permanente e sustentável na recuperação da ilha do Príncipe.

São Tomé tem o seu próprio ritmo, o chamado “leve-leve”. Não há pressas nem correrias, impaciências ou precipitações. Não importa o tempo que se demore, mas sim o usufruir da calma que a sua demora lhes dá. E as pessoas são felizes assim. Não invejam uma grande cidade onde os habitantes apenas se encontram ao final do dia ou um sistema de transportes rápido. Em vez disso vivem da Natureza e para a Natureza. Da fruta-pão, banana, jaca, matabala, sape-sape, café ou do cacau. Existe inclusive a história de uma criança de 11 anos que, perdida na floresta da ilha do Príncipe durante oito meses, sobreviveu alimentando-se daquilo que a selva lhe foi dando.

A todas as pessoas que me pedem recomendações sobre S. Tomé e Príncipe lhes digo que é um ótimo destino para viajar em família, com namorado ou com o intuito de participar em ações de voluntariado. Claro que se pode viajar sozinho, mas não se espere uma experiência completa de backpacker, devido à pouca cadência de transportes, à ainda carência de alojamentos de baixo custo e à inevitabilidade de preços elevados nos supermercados com a importação de alguns produtos.

A não perder em S. Tomé e Príncipe:

  • Praias desertas: não é um mito, as praias são mesmo desertas. De difícil acesso na maior parte das vezes, onde os jipes se esforçam por contornar os buracos nas estradas de terra enlameada, é possível passar um dia inteiro numa das belíssimas praias de azul cristalino, sem ver uma única pessoa. Dizem que as praias do sul da ilha de S. Tomé são melhores que as do norte, e se parecem muito às da Ilha do Príncipe. Eu apenas conheço as desta última, e a praia Macaco, Boi ou Banana não defraudam qualquer expectativa.

  • Snorkeling: leve a máscara de Snorkeling e a Go-pro para conhecer os inúmeros peixes de variadíssimas cores que convivem nas águas calmas e transparentes. A Lagoa Azul ou o Bom Bom Island Resort são alguns dos locais para passar o dia no mar.
  • Peixe e fruta-pão: o peixe é o prato mais fresco e barato que se pode encontrar. Na maioria das vezes não existe um menu nos restaurantes, mas sim uma lista dos peixes que foram apanhados naquele dia. Acompanhado com arroz cozido, fruta-pão ou banana frita, é uma iguaria para ser provada ao almoço ou ao jantar.

  • Café e cacau: viaje no tempo na roça Monte Café e palmilhe os campos de cultivo no Terreiro Velho, propriedade do Claudio Corallo. A história das roças toda a gente a sabe, mas é útil ver e conhecer os instrumentos seculares usados na produção do café, assim como os registos intemporais dos que nas roças viviam e trabalhavam. O cacau é outro dos orgulhos desta terra, onde há quem diga que se faz o melhor chocolate do mundo.

  • Roças: existem inúmeras roças em S. Tomé e Príncipe, a maior parte delas em avançado estado de degradação. Diversas pessoas ocupam as meias paredes que restam daquilo que um dia foi uma povoação ativa com escolas e hospitais. É de todos os modos interessante conhecer o que sobreviveu ao esquecimento de um pedaço de história. Aquelas que têm vindo a ser reconstruídas estão edificadas na ilha do Príncipe. A Roça da Boa Entrada, Agostinho Neto, Uba Budo, Água Izé, Sundy e Paciência são as minhas de eleição.
  • Pureza das crianças: não faltarão crianças a acenar e a cumprimentar por onde se passe. A pedir doces, fotografias ou dinheiro. Responda, sorria, tire fotografias se lhe pedirem, e mostre. Muitas delas querem apenas conhecer as suas caras numa imagem. Não dê doces ou dinheiro – a saúde dentária está recentemente a instalar-se neste país e não queremos que as crianças associem o turismo ao ato de mendigar. Se quiser ajudar, há instituições que trabalham no território e que estarão muito gratas pela colaboração fornecida.

Helena Rosa