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Esta viagem começa na cidade costeira do Norte, Nacala Porto e segue para norte por 80 km de terra batida e 2h30 de Land Cruiser até ao nosso destino de hoje: o Nuarro Lodge, na fronteira distante do Turismo Ecológico.

Este destino turístico e inóspito, fica exactamente onde se pode dizer estarmos entre a praia e o mato, na terra da mamba negra, a ”black mamba”, uma das mais perigosa cobras em África, segundo os meus anfitriões, directores do Lodge: o casal Tibea e o Evan, este um sul-africano, profundo conhecedor do mato e da fauna bravia.

O desafio foi ir dar um workshop, tipo seminário de 2 dias e meio, científico-tecnológico, em “Higiene, Limpeza e Segurança Alimentar” a uma turma de 20 formandos em que só dois sabiam ler e escrever. Assim o formador teve que aplicar todas as suas aptidões e métodos pedagógicos, entre o expositivo, o demonstrativo, proactivo, e muitos desenhos e bonecos no quadro branco, e ainda muito gesto corporal. A matéria era Limpeza, passando tudo por mostrar os materiais consumíveis, o equipamento á mão, e uns filmes de lavagem de mãos e outros mais representativos da higiene mais básica pessoal e na restauração. Uma experiência em formação muito pragmática, cansativa mas no final muito motivadora.

Eu, de “muletas” por causa do meu fémur partido, juntamente com o cansaço da formação, ficava de rastos. Aqui, às 17h00 já é de noite e às 18h30 janta-se. Depois, segue-se um bom ”bate papo” cheio de estória africanas locais e o regresso ao alojamento.

As estórias passam-se no Lodge, na berma do mato, à beira-mar. Aqui, os materiais de construção são mesmo ecológicos: é  fio de mangais que segura e amarra as traves do tecto das casas; a casa de banho tem água de furo que subia num reservatório, aquecida com painéis solares e uso de “gizzers” para dar pressão; um recipiente com cinza e uma colher de casca de coco substitui, um autoclismo que não tem na sanita – o sistema parece complexo mas não é, e só os ecologistas podem mesmo explicar; a casa de banho é aberta entre as paredes e o telhado de colmo, permitindo a “convivência” com os insectos rastejantes e voadores. Por exemplo, há um “voador”, gordo e negro que esvoaça como um helicóptero, a volta do telhado e do tecto de colmo, que gosta de madeira, e que se chama “algo-carpinteiro” que mete respeito. Não faz mal mas no seu percurso errático de navegação se te acerta estraga-te a roupa com um líquido ácido terrível.

As casas do alojamento do Lodge, estão espalhadas por uma linha de mais de um quilómetro de extensão a beira do mar, num caminho de matagal entre o bar convívio e o restaurante principal, estendendo-se pela beira-mar da praia solitária que é quebrada por uma ou outra gruta na rocha.

A grande Gruta da praia serve no seu interior mais profundo como cemitério do povo Macua do aldeamento, onde além da sepultura pura e simples, por cima de cada uma se pendura a roupa do falecido.

As noites são tranquilas no meio do arvoredo, mas o silêncio é incrível. A cama está completamente rodeada da rede mosquiteira, e é como o refúgio e o descanso do guerreiro. A alvorada tem como despertador, logo às 5 horas da manhã, uns pássaros verdes, canários de Moçambique, que cantam e conversam entre eles de forma telegráfica e consistente. O xirico – um Bhalane; o Robin Chat, como os gerentes lhe chamam, que praticamente fala contigo e retorna o chilrear o som que se produz com boca.

Aqui, neste lugar distante, a energia é fornecida por uma estação de placas solares e 48 baterias que distribuem os 220 volts necessários ao estabelecimento. Existe ainda uma pequena estação de dessalinização mas que é um processo extremamente caro e apenas usado como emergência.

A pescaria aqui tem que ter regras e é sustentável. Pesca e larga (Catch and release). Comer peixe fresco só se for atum ou eixe-serra, porque de peixe que anda na rocha não se pode consumir. A garoupa, o peixe papagaio e o próprio peixe-pedra não fazem parte do cardápio.

Finalmente, num lugar onde ainda se morre de malária e a febre tifóide tem nome próprio, matando frequentemente, os meus formando alinharam-se para receber um certificado de participação, com uma emoção e motivação únicas. Aquele certificado na altura recebido era como uma coisa especial, olhavam-no e reviravam-no como coisa preciosa. Já nem saiam da sala.

Depois das fotos da praxe e das despedidas, voltei no Land Cruiser á civilização, não sem antes ter que ultrapassar um fundo lamaçal, uma estrada irregularíssima e uma corrente de água.

No final, enchi o meu caderno de apontamentos e percorri um outro caminho que desconhecia como formador e hoteleiro, e que me enriqueceu a bagagem e a alma desta já longa carreira de aventuras.

Emídio Baptista
ebconsultoria108@gmail.com

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